Planeta Sustentável

PATROCÍNIO:
Para crianças meu planetinha

Biodiversa

Publique
o selo
no seu blog

O inibidor de serpentes Liana John - 28/10/2010 às 15:40


Misteriosamente, começaram a desaparecer cascavéis do serpentário da Universidade de São Paulo (USP), campus Ribeirão Preto. Teriam elas fugido? Difícil: os recintos têm paredes verticais e telas de proteção, como manda o protocolo. Teriam morrido naturalmente? Improvável: os corpos não foram encontrados e nunca houve casos de canibalismo entre elas. Roubo? Bem, cascavéis não são exatamente populares como mascote, mas seria uma possibilidade, pois seu veneno tem valor no mercado negro. 

Uma investigação mais cuidadosa logo revelou o culpado: um gambá! Ele estava se alimentando das serpentes e, apesar de apresentar marcas de picadas, parecia resistir bem ao veneno. O mistério então se transformou em pesquisa, em meados de 2000, pelas mãos do bioquímico Andreimar Martins Soares e de uma equipe de doutores e pós-graduandos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP Ribeirão Preto, com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e apoio do Instituto Butantan e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus Botucatu, entre outras instituições e universidades. 

“Resolvemos investigar a resistência natural do animal. Com autorização do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), colhemos sangue do gambá e obtivemos o soro, que de fato provou neutralizar as toxinas de serpentes”, conta Soares. “Embora aqui na USP o gambá estivesse se alimentando de cascavéis, verificamos que as proteínas de seu sangue possuem fatores neutralizantes mais eficazes contra o veneno das jararacas, ou seja, seriam antibotrópicos. No caso da cascavel, a neutralização é parcial”.

O gambá ladrão é da espécie Didelphis albiventris, mas o sangue de outra espécie do mesmo gênero – D. marsupialis – tem as mesmas características. As duas espécies são extremamente comuns no Brasil e convivem de perto com o homem, muitas vezes instaladas entre o forro e o telhado das casas, inclusive nas cidades. 

“Nós isolamos diversas substâncias do complexo de fatores neutralizantes e agora estamos avaliando a potência de inibição das toxinas de cada proteína isoladamente e de várias combinações entre elas”, continua o  pesquisador. Algumas plantas com potencial antiinflamatório e bloqueador de toxinas também são objeto de pesquisa, caso da guaçatonga (Casearia sylvestris), do guaco (Mikania glomerata) e do saboneteiro (Sapindus saponaria), entre outros. 

De uma coisa Andreimar Soares já tem certeza: Quando o soro antiofídico tradicional é suplementado com as proteínas do gambá e os flavonóides e terpenos das plantas, a potência de neutralização aumenta. A questão é ajustar a melhor fórmula inibidora antiofídica, de olho na eficácia dos diferentes compostos ou moléculas e na viabilidade de produção comercial. 

“No caso do gambá, não é possível depender de extração do sangue, pois se trata de um animal da fauna silvestre, não há criação em cativeiro. Assim, estamos seguindo com clonagem para tornar viável a produção em escala”, pondera o bioquímico. O trabalho ainda está nos estudos de base, findos os quais vem a fase de testes pré-clínicos.

De qualquer modo, para os gambás o horizonte é animador: de bicho indesejável, fedorento e ladrão de galinhas a perspectiva é passar ao venerando status de inibidor de serpentes. Não é nada, não é nada, pelo menos há chance de as vassouradas diminuírem… 

FOTO: Liana John – gambá comum (Didelphis marsupialis) 

ver este postcomente
Comentários

28/10/2010 às 20:50 Anonymous - diz:

Geiser Trivelato – diz:Que legal Liana, só você mesmo para nos trazer informações sobre nossa biodiversidade e quase sempre aliadas a algo para nosso consumo, tratamento e bem estar! Parabéns pelo novo espaço e saudades da época da Terra da Gente!

29/10/2010 às 07:02 Anonymous - diz:

zaga truzzi – diz:Interessante Liana. Outro dia salvei um aqui na piscina de casa.O bichinho é meio feio mesmo , mas c/ essa informação ficou lindo!!rsss

29/10/2010 às 09:22 Anonymous - diz:

Rudimar Cipriani – diz:Quem diria, hein ? O gambá tão desprezado e descriminado por muitos pode passar a ter fama de benfeitor, se bem que na natureza, desempenhando seu papel como elo importante no equílibrio dos ecossistems já o é.Muito interessante seu artigo e, a exmplo dos outros postados, sempre surpreendente. Parabéns.

02/11/2010 às 12:03 Anonymous - diz:

Cristina Pascoal – diz:Liana, gostei bastante da informação. Interessante como fatos inusitados, como o roubo das serpentes, possibilita novas conquistas científicas.

27/05/2011 às 00:25 Anonymous - diz:

Inibidor serpentes 271837_post.. Nifty :)

03/06/2011 às 10:12 Anonymous - diz:

Inibidor serpentes 271837_post.. I like it :)

05/06/2011 às 10:28 Anonymous - diz:

Inibidor serpentes 271837_post.. Super :)

02/07/2011 às 16:19 Anonymous - diz:

Inibidor serpentes 271837_post.. Dandy :)

Deixe aqui seu comentário: Preencha os campos abaixo para comentar, solicitar ou acrescentar informações. Participe!

Enviar

BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

Posts anteriores

16/05 • Óleos essenciais x fungicidas sintéticos

09/05 • A união faz o reforço

02/05 • Nanofibras com óleo geram tecidos medicinais

25/04 • Como passar uma borracha nos defeitos ósseos

18/04 • Sabor e conservação à moda Baniwa

11/04 • Sofisticação casa com sustentabilidade, sim senhor!

04/04 • Vai até o pelinho do caroço!

28/03 • Uma tijolada no desperdício

21/03 • Mais buriti: leve, claro e fresquinho

14/03 • Um substituto para o maldito isopor

07/03 • Gruda até debaixo d’água

28/02 • Um mato baixo contra a alta da malária

21/02 • Enzimas boas de briga

14/02 • Como se coloca uma baleia em um ventilador?

07/02 • Corta fadiga e apaga fogachos

31/01 • Erva-baleeira, a salvação dos esportistas bissextos

24/01 • Babaçu, o adsorvente eficiente

17/01 • Quando a inspiração vem do formigueiro

10/01 • Palmas para a carnaúba

03/01 • Pepinos e conchas contra trombose e tumores

27/12 • Orelha de onça acaba com asma, rinite e afins

21/12 • Bambu da bica à boca

13/12 • Uma cutia como opção amazônica

06/12 • Todo charme dos painéis de fibras naturais

29/11 • Pequi, o protetor dos atletas

22/11 • Do lixo para o Spa

15/11 • Fungos para curar nossos solos

08/11 • Uma microalga para dois macrodesejos: emagrecer e não envelhecer

01/11 • Para curtir sem poluir

25/10 • O fim (da picada) está próximo!

18/10 • Saúde embalada com estilo!

11/10 • Sentinelas nativos contra o estrangeiro voraz

05/10 • O lugar certo para a titica

27/09 • Pracaxi dá adeusinho às estrias

20/09 • Grandes lições de um pequeno construtor

13/09 • Ventilação à moda cupinzeiro

06/09 • Murumuru, a proteção que respira

30/08 • Do Cerrado, contra a dengue

23/08 • Quando as conchas entram pelo cano

16/08 • A proteção que vem da Caatinga

09/08 • Cheirinho fatal

02/08 • Mesma forma, nova função, tremenda inovação

26/07 • Bom para a tosse e bom para o clima

18/07 • Cheirosa, gostosa e – porque não? – decorativa

12/07 • Às favas com as varizes

05/07 • De amarga já basta a vida

28/06 • Uma borracha que duuuuuuura…

21/06 • Vamos todos tomar caju!

14/06 • Problemas com glicose? Aposte no cambuci!

07/06 • Das lagoas para as indústrias

31/05 • Como canários numa mina de carvão

24/05 • Não adianta chorar pelo petróleo derramado

17/05 • Camucamu contra gripes e resfriados

11/05 • Uma ponte para dois remédios

03/05 • Guanandi reabilita a várzea amiga

26/04 • Coração forte como um touro

19/04 • Para viajar sem jet lag

12/04 • Mensageiras das boas águas

05/04 • Os poderes ocultos do X-Caboquinho

29/03 • Do couro n’água ao couro d’água

22/03 • Descole, se for capaz

15/03 • Frutas com veneno, nunca mais!

08/03 • Uma invasora contra invasões

01/03 • Larica de priprioca

23/02 • Em passo de formiguinha…

16/02 • O toque de Midas da bromelina

09/02 • Curauá enfrenta até terremoto!

02/02 • Da boca da serpente

26/01 • Com mulungu, mamulengo é moleza!

19/01 • Com mandacaru não tem água turva

12/01 • Pode comer que… é batata!

05/01 • Um catavento contra o câncer de laringe

22/12 • Enfim um fim para micoses teimosas!

15/12 • A volta por cima da velha piaçava

08/12 • Quando a ferroada vira remédio

01/12 • Feijoa: guardem bem este nome!

24/11 • A proteção está no bagaço

17/11 • Coco no cabelo, casca no churrasco

10/11 • Novo etanol sairá do solo amazônico

03/11 • Caju com resíduos faz do piso à telha

28/10 • O macaco está certo!

20/10 • Sujeira da grossa pede bactérias faxineiras

13/10 • O conservante dos conservadores de beleza

06/10 • Com baguaçu, a febre vai pro brejo

29/09 • É a volta do cipó de aroeira

22/09 • Bom para bumbum de bebê

15/09 • Pimenta-de-macaco ajuda até a descascar abacaxi sem surpresas

08/09 • Quem disse que pau oco não faz milagre?

01/09 • Sinal vermelho para o sol

25/08 • Comigo ninguém pode… nem mesmo a poluição!

18/08 • Vacinar o cão para proteger o dono

11/08 • De veneno a fortificante

04/08 • Na horta marinha brota saúde e renda

28/07 • Patauá é prazer de cama e mesa!

21/07 • A saúde é índigo blue

14/07 • A inspiradora flexibilidade do pirarucu

07/07 • Para curar qualquer ferida

30/06 • Pau-terra contra os efeitos do estresse

23/06 • Viva São João! Lá no alto e aqui no chão!

16/06 • Bicão high-tech

09/06 • Erva pra cabeça, por dentro e por fora

02/06 • Há males que vêm pra bem

26/05 • Tucupi, tacacá e tá na cara

19/05 • Esse chá de cogumelo é do bom!

12/05 • Um dedal de esperança contra alergias

05/05 • Só uma santa para derrotar a celulite!

28/04 • Mosquitos contadores de histórias

21/04 • Tremiliques da grumixava

14/04 • Coquinhos para encher o tanque

07/04 • O rapa das bactérias mineradoras

31/03 • Pimenta na salmonela dos outros é antisséptico

24/03 • Como bem dizia Anchieta…

17/03 • Comer, beber, emagrecer

04/03 • Do lixo para as passarelas

03/03 • Para matar a sede de saúde

24/02 • Varre, varre a dengue, vassourinha…

17/02 • Microexército para macrobatalhas

10/02 • Deu praga na praga

03/02 • Para rejuvenescer, use o escorrega-macaco

27/01 • Cascavel na veia ou em cápsulas?

20/01 • Madeiras que cantam e encantam

13/01 • Falta ar? Recorra ao peixe venenoso!

06/01 • Comece bem, com a pata-de-vaca certa!

16/12 • Um toque de sabor e textura aos congelados

09/12 • Overdose agrícola tem cura!

02/12 • Uma torneirinha para o bem-estar

25/11 • Para o alto e além!

18/11 • Vírus por vírus, o nacional é melhor

11/11 • A criativa defesa das pererecas

04/11 • Como tirar plástico da mandioca

28/10 • O inibidor de serpentes

21/10 • Relaxe! Deixe o herpes com a marcela

14/10 • Contra gripes e resfriados, use o guarda-sol

07/10 • Para lavar a égua… Ops: a água!

30/09 • Regeneração óssea sai da zona do vinagre

23/09 • Lugar de caju é na escova de dentes

16/09 • E carrapato lá tem serventia?

09/09 • A aposta no picão-preto

02/09 • As vantagens de ser homem-aranha

26/08 • Vai antigraxa aí, doutor?

19/08 • Um segredinho para adiar a morte

12/08 • Alívio é com a cabeludinha

05/08 • Esponjas para lavar o Mal do Século

29/07 • Medidores bat-precisos e bat-econômicos

22/07 • Vazou petróleo no mar? Camarão nele!

15/07 • Buriti: das veredas para os semáforos

14/07 • Luzinha ‘dedo-duro’

14/07 • Caranguejeiras x super bactérias

PATROCÍNIO: