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Na horta marinha brota saúde e renda Liana John - 04/08/2011 às 17:08
Os bancos de
algas do litoral cearense sustentavam o puro extrativismo desde os anos 1940. A
partir dos anos 1960, a exploração se intensificou devido ao crescente
interesse das indústrias alimentícia e cosmética. Na primeira, o ágar retirado
das algas marinhas um gel natural recheado de proteínas serve como
espessante e, na segunda, entra na formulação de xampus, sabonetes e
hidratantes. A demanda sobretudo para exportação aumentou a ponto de a
coleta tornar-se predatória, ou seja, a velocidade de crescimento das algas já
não dava conta da coleta mensal.
O esquema
funcionava assim: mulheres percorriam os bancos de algas e recifes na baixa da
maré grande, como é conhecida a maré mais forte do mês, associada à lua cheia
ou à lua nova. Levavam sacos de ráfia e iam enchendo com as algas macarrão,
muitas vezes retiradas junto com o talo de fixação. A preocupação maior era o
volume e não a qualidade ou o fato de a alga não crescer mais quando o talo é
arrancado.
De volta em casa, as coletoras estendiam as algas no chão para secar
e vendiam o quilo a R$ 0,50, a intermediários que passavam à porta de caminhão.
As algas sujas e misturadas iam então para centros de beneficiamento, para
serem lavadas, processadas e transformadas em matéria-prima para exportação,
via porto da Paraíba.
O declínio dos
bancos de algas levou as comunidades tradicionais a repensar a atividade. E o
esquema começou a mudar na comunidade de Flecheiras, de Trairi (CE), graças à
parceria com a organização não governamental Instituto Terramar mais o apoio do
engenheiro de pesca Dárlio Teixeira, da Universidade Federal do Rio Grande do
Norte (UFRN), e de diversas equipes da Universidade Federal do Ceará (UFC), em
especial o grupo coordenado por Norma Benevides, do Departamento de Bioquímica.
Ao conhecimento
das coletoras e dos pescadores tradicionais os pesquisadores somaram técnicas
de cultivo de algas, garantindo a sustentabilidade da produção. Agora, na baixa
da maré grande, as algueiras ainda saem de casa com sacos de ráfia, mas levam
uma faquinha para coletar as algas sem arrancar o talo e sabem escolher as boas
mudas. De volta em casa, elas separam apenas o macarrão (Gracilaria birdae),
tiram o lodo, e amarram as mudas em cordinhas penduradas em uma grande corda de
nylon (long line), de 50 metros de comprimento.
A estrutura toda
segue de volta para o mar, para ser fixada após a arrebentação, a cerca de 100
metros da praia. As cordas com as mudas são fundeadas com âncoras especiais de
cimento, para as algas permanecerem em contato com a areia. Dependendo do local
e da época do ano, a horta marinha permanece lá no fundo durante 45 a 60
dias. Aí, sim, é feita a coleta para uso, de algas crescidas e de boa
qualidade. Cada corda de 50 metros rende algo em torno de 250 a 300 kg de algas
in natura, o equivalente a 22 ou 30 kg de algas secas, vendidas sem
intermediários a R$ 30,00 o quilo.
Antes de ser
comercializado, o material passa por 5 a 8 lavagens, com muita água e limão,
sem nenhum produto químico. Depois vem a secagem, no secador solar: uma
estrutura de madeira com tela e um ventilador por baixo e tampas de acrílico
por cima. A secagem é mais rápida e homogênea, sem risco de contaminação. As
algas estão prontas para o consumo e são embaladas em saquinhos de 50 gramas
para a venda em pousadas, restaurantes e casas especializadas.
Realizamos
diversas análises na UFC e constatamos que essa espécie de alga tem alto índice
de proteínas e muita fibra, revela a engenheira de pesca Natália Mendes do Amaral,
do Terramar. Seu consumo é recomendado para vegetarianos, para substituir a
carne, e também para pessoas com problemas de colesterol, pois ela tem o
chamado colesterol bom. Verificamos ainda um alto teor de sais minerais, como
zinco, ferro, potássio e iodo. Tem muito iodo!
Ainda foi
detectada a presença de vitaminas do grupo B e queremos detalhar esta análise
para saber se existe vitamina B12, que é mais difícil de obter em produtos
naturais, acrescenta. Por outro lado, avaliamos a toxicidade e comprovamos
que o consumo como alimento é seguro.
A par do trabalho
junto com a pesquisa na qualificação das algas, o Instituto Terramar faz a
capacitação dos algueiros nas comunidades de Flecheiras e Maceió, nos
municípios de Trairi e Itapipoca, respectivamente. As mulheres, que sempre
foram a maioria entre os coletores, são as mais beneficiadas. Mas o aumento da
renda dos R$ 0,50 para R$ 30,00 o kg também se traduz na fixação dessas
comunidades no litoral, muito visado pela especulação imobiliária, pondera
Natália. E cita como exemplo a briga dos algueiros para se manter numa faixa de
12 quilômetros da praia de Maceió (CE), onde um empreendedor com capital
estrangeiro queria montar um resort. A atividade produtiva com tecnologia foi
ponto positivo para as comunidades tradicionais, reafirmando e garantindo seu
território.
Além das mudanças
no modo de coletar as algas cearenses, mudou também o uso desse pedacinho de
biodiversidade brasileira: a matéria prima não é mais exportada, mas convertida
em alimentos artesanais lá mesmo, no litoral de origem. O hit é a cocada
turbinada com as nutritivas algas, apelidada de cocalga.
Novos produtos
também despontam no horizonte, com o estudo de outras espécies de algas que
ocorrem por lá, dos gêneros Hypnea e Solieria. Alguns jovens ainda fazem papel
artesanal com algas arribadas, aquelas que se soltam e são carregadas pelas
ondas até a praia. Só não cultivamos algas exóticas, como fazem alguns
produtores do Rio de Janeiro, comenta a engenheira de pesca do Terramar.
Preferimos trabalhar só com as espécies nativas, pois as exóticas podem se
transformar em pragas e dominar ecossistemas inteiros quando não há controle. E
é difícil controlar qualquer coisa lá no meio do mar.
Foto: Arquivo
ver este postcomente
Terramar (coleta das algas cultivadas em long line)
05/08/2011 às 15:06 Anonymous - diz:
demian topel – diz:Muito bom! Sou vegetariano, mergulhador e ambientalista. Adoro algas, e fico feliz em saber que, em alguns locais, são cultivadas de forma socioambientalmente sustentável.
05/08/2011 às 17:54 Anonymous - diz:
TONI ORMUNDO – diz:MARAVILHOSA MATERIA LIANA JOHN ,PLOTEI NO MAU TWEET COM UM SUBTITULO PLANTADO SAUDE E DIGINIGADEPARA AS COMUNIDADES PESQUERA
06/08/2011 às 11:43 Anonymous - diz:
Ingrit Reiter – diz:Muito interessante este artigo , é bom saber que com atitudes simples, interesse e boa vontade se pode mudarvarias trajetórias neste caso do meio-ambiente e das pessoas.
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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