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Há males que vêm pra bem Liana John - 02/06/2011 às 11:15
Símbolos de
traição, suicídio, veneno e perigo, os escorpiões estão entre os animais menos
amados do Planeta. Mas mesmo quem os teme reconhece e até admira sua capacidade
extrema de resistência: eles vivem bem tanto nos desertos escaldantes como em
cavernas frias, e nem se abalam com os venenos químicos que usamos para nos
defender de invertebrados considerados pragas. Acredita-se, inclusive, que, no
evento de uma catástrofe nuclear global, eles estariam entre os sobreviventes,
ao lado de suas presas mais comuns: as baratas.
Resistência
gostemos ou não também é uma característica de alguns tumores e males do
organismo humano, contra os quais pesquisadores queimam tutano e dedicam anos
de estudo, em busca de remédio. Curiosamente, um desses males talvez seja
derrotado por uma enzima contida no veneno do escorpião-amarelo brasileiro,
cientificamente conhecido como Tityus serrulatus. Seria algo como fazer a soma
de duas forças resultar em um toque de suavidade…
O mal, no caso, é
a fibrose pulmonar, uma doença causada pelo aumento das fibras no tecido
pulmonar, do qual decorre o endurecimento das paredes do pulmão e consequente
perda de capacidade respiratória. Em muitos casos, a fibrose pulmonar é uma
doença ocupacional, afetando mineiros ou trabalhadores que estão em contato
constante com partículas em suspensão, como sílicas e amianto, entre outras.
Ao estudar o
veneno do escorpião-amarelo, o grupo de pesquisa da Faculdade de Ciências
Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP/USP),
liderado por Lúcia Helena Faccioli, descobriu o potencial de enzimas conhecidas como
hialuronidases, no recrutamento de células com características semelhantes às
células embrionárias, que são indiferenciadas e servem para formar os tecidos
(chamadas de células mesenquimais).
Nós mostramos
que estas células recrutadas para os pulmões, participam da inibição da fibrose
local, explica a pesquisadora. Considero estes dados muito relevantes, pois
abrem uma possibilidade de tratamento de pacientes com fibrose pulmonar. De
uma maneira bem simplificada, a ação dessa enzima seria algo como estimular a
formação de um remendo suave para reparar um tecido excessivamente
endurecido.
O trabalho
orientado por Lúcia no Laboratório de Inflamação e Imunologia das Parasitoses é
conduzido por Claudia Bitencourt, pós-doutoranda com bolsa da Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e conta com a colaboração de
outra aluna, a doutoranda Priscilla A. T. Pereira. Ainda participam do estudo
as pesquisadoras Simone G. Ramos, Suely Vilela Sampaio e Eliane C. Arantes,
todas do campus de Ribeirão Preto. Além das bolsas Fapesp, elas têm recursos do
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
No decorrer das pesquisas,
as cientistas buscaram outras fontes de hialuronidases, pois a quantidade
isolada a partir do veneno do escorpião era muito pequena. Elas compararam os
efeitos com o mesmo tipo de enzima obtida do líquido seminal de bois e os
resultados foram os mesmos. Como a hialuronidase de boi é um produto
comercial, vendido em farmácias, ou purificado e vendido por empresas diversas,
demos continuidade aos estudos com o produto comercial, acrescenta.
As hialuronidases
também provaram ter potencial antitumoral e antiinflamatório, mas os detalhes
ainda não podem ser divulgados, pois o grupo aguarda o reconhecimento de uma
patente, já depositada. Nosso grupo é o primeiro a desvendar parte de seus
mecanismos de ação. Temos outros resultados que poderão sugerir outros usos,
mas ainda não podemos divulgar. Nossa patente se refere a novos usos desta
enzima e, também, novas formulações, resume Lúcia Faccioli.
Por enquanto não
houve interesse da indústria farmacêutica em investir nos testes necessários
para transformar este potencial num medicamento. Mas esperamos que o interesse
surja quando a patente for concedida. Afinal, fibrose pulmonar é um mal que
afeta um grande número de pessoas, aposentadas precocemente e, por enquanto,
sem perspectivas de cura, somente de tratamento de convivência com a doença.
Foto: Rogério
ver este postcomente
Bertani/Instituto Butantan (escorpião-amarelo)
09/09/2011 às 16:40 Anonymous - diz:
cleuza maria eller – diz:Sou portadora de fibrose pulmonar e aguardo anciosa por uma descoberta fantastica como essa ! que sejamos vitoriosos.
14/11/2011 às 18:37 Ciência para todos! - Paisagem Fabricada - diz:
[...] para materiais de construção, peixes que possuem escamas que influenciam a engenharia e venenos que servem para curar. Ler sobre tudo isso até que dá aquela vontade de pesquisar mais sobre processos biológicos e, [...]
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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