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Feijoa: guardem bem este nome! Liana John - 01/12/2011 às 19:59

Ela é nativa do Sul do Brasil, mas é mais conhecida pelos consumidores da Europa, Estados Unidos, Japão e Oceania. Ela até pode ser encontrada em boas frutarias da cidade de São Paulo, entre março e maio. Mas só na versão importada da Colômbia, cuja produção só perde para a da Nova Zelândia (embora em nenhum dos dois países ela cresça naturalmente).

Ela é conhecida como feijoa (Acca sellowiana), embora nada tenha a ver com o feijão. Também atende por goiaba-serrana, goiaba-crioula,
araçá-do-rio-grande, goiaba-abacaxi, goiaba-ananás ou, em inglês, pineapple guava e fig guava.

Trata-se de uma fruta oval, de 5 centímetros, casca verde e polpa branca macia, da família das mirtáceas. Aparentada, portanto, com a jabuticaba, a pitanga e a goiaba. Mas não com o abacaxi, apesar dos apelidos (derivados de seu sabor agradável, descrito como uma indefinida mistura de lembranças boas).

Como toda fruta, a feijoa tem suas qualidades de alimento funcional: muita vitamina C; fósforo; magnésio; sódio; cálcio e uma bela dose de potássio, bom para combater câimbras e dar tonicidade aos músculos. Diferente do resto, porém, ela tem ainda um alto teor de iodo, componente importante dos hormônios secretados pela tireóide, responsáveis pelo equilíbrio do metabolismo em nosso organismo. A carência de iodo leva ao desenvolvimento de uma doença chamada bócio e é por isso que o elemento é acrescentado artificialmente ao sal que consumimos.

As qualidades únicas da feijoa não param por aí. De acordo com pesquisas desenvolvidas sobretudo na Itália, sua polpa é antioxidante (ajuda a “segurar” o envelhecimento) e antimicrobiana (combate bactérias e fungos). Uma pesquisa realizada no Japão vai mais além, atribuindo ao consumo da fruta o poder de modular a imunidade intestinal e reduzir a tolerância oral. Os japoneses testaram a polpa ao natural e uma versão in vitro digerida e, em ambos os casos, os polifenóis presentes na feijoa reduziram a secreção de TGF-beta pelo intestino. TGF-beta é uma proteína comum em todo nosso organismo, mas sua secreção em excesso está associada ao crescimento de células cancerosas.

Traduzindo para o português claro, isso torna a feijoa uma aliada importante na prevenção e no tratamento de certos tipos de câncer e doenças auto imunes, ou seja, doenças causadas pelo mau funcionamento do sistema imunológico (quando nossas “armas” de defesa atacam o próprio organismo).

Com tantos benefícios passíveis de se obter com o simples consumo da fruta – ou de doces, sucos e sorvetes feitos com sua polpa – é de se perguntar por que a grande maioria dos brasileiros não conhece a feijoa. Parte da dificuldade está no fato de a espécie não estar bem domesticada e os frutos não resistirem à armazenagem por mais de 2 a 3 semanas, explica o agrônomo e doutor em genética, Onofre Rubens Nodari, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), principal pesquisador da espécie no Brasil.

Com a contribuição de seus orientandos de pós-graduação em Recursos Genéticos Vegetais e algumas parcerias com a Embrapa, Nodari trabalha na caracterização, na conservação e no melhoramento da feijoa desde 1985. Segundo ele, a pesquisa com a espécie, no Brasil, teve início na Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri/SC) com o francês Jean Pierre Ducroquet, hoje aposentado. A agrônoma Karine dos Santos dá continuidade às estas pesquisas pela Epagri, sendo que a empresa já dispõe de 4 cultivares de feijoa adequadas para plantio no estado.

Na UFSC, Nodari coordena um programa de melhoramento genético participativo, em parceria com duas dezenas de agricultores gaúchos dos municípios de Ipê e Antonio Prado (RS) que já cultivavam tradicionalmente a planta. “Fizemos um estudo no qual eles identificaram as qualidades e os problemas de cada pé de feijoa selecionado e apontaram os melhoramentos desejados”, conta o pesquisador. “Hoje estamos devolvendo as mudas melhoradas a estes agricultores, para início de um plantio comercial, visando o mercado nacional”.

Na opinião de Nodari, a feijoa é uma excelente opção para o pequeno agricultor familiar. “A goiaba-serrana madura permanece com a casca verde e só se sabe que o fruto está no ponto quando ele se solta facilmente do galho. Então a colheita exige o repasse diário do agricultor para verificar quais frutos estão em ponto de colheita. Não admite mecanização como no caso de maçãs, por exemplo. Em compensação, a comercialização tem uma boa rentabilidade”.

Esses produtores tradicionais levam suas feijoas para vender em Porto Alegre, nas feiras. “E o que eles levarem, vende”, garante Onofre Nodari. A ponto de atrair a atenção de outros agricultores, que estão iniciando plantações maiores, e cooperativas, que começam a se organizar para apresentar a feijoa ao resto do Brasil.

Ah, e querem saber mais um pouquinho? A feijoa produz flores muito diferentes, com pétalas carnudas e saborosas, muito apreciadas pelas aves. As aves visitam as flores atrás das pétalas e se enchem de pólen, fazendo a polinização da espécie. O zoólogo Ivan Sazima e a botânica Marlies Sazima, ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), observaram nove espécies de pássaros se alimentando em um único pé de feijoa, em Gramado (RS). Os mais assíduos foram o sanhaço-cinzento (Thraupis sayaca) e a saíra-preciosa (Tangara preciosa). E o primeiro foi visto alimentando inclusive os filhotes no ninho com os pedacinhos de pétalas!

Tem gente que aprecia essas mesmas pétalas em saladas. E elas são usadas para enfeitar pratos sofisticados na Nova Zelândia, fazendo parte do cardápio, eventualmente.

Em resumo, prestem atenção neste nome – feijoa – vocês ainda vão ouvir maravilhas sobre ela!

Foto 1: Liana John (flor de feijoa no Sítio do Bello, em Paraibuna/SP)
Foto 2: Rudimar Narciso Cipriani (saíra-preciosa, São Lourenço D’Oeste, SC)

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Comentários

01/12/2011 às 21:44 Ivan Sazima - diz:

Muito bem feito, como a maioria dos seus artigos, parabéns!

Grato pela menção ao nosso estudo em Gramado.

Um grande abraço,

Ivan

01/12/2011 às 21:48 HAROLDO CASTRO - diz:

Eu descobri a FEIJOA há uns 20 anos quando comecei a fotografar frutas. E descobri esta inusitada fruta nos EUA, imagine! Uma delícia… Quem tiver feijoa para vender, eu compro!!!

01/12/2011 às 22:40 Instituto Orbis de Proteção e Conservação da Natureza - diz:

Plantamos uma dessa no nosso jardim. Ainda é pequena, porém, sabendo de seu incrível potencial ornamental, associado ao seu outro potencial, o de atrair as aves, além, claro, de tudo o que está explicado aqui em seu artigo, não hesitamos em manter um exemplar dessa bela arvoreta.
Plantar árvores nativas, caso dessa espécie aqui na nossa região, a Serra Gaúcha, sempre traz benefícios e belas surpresas. Hoje temos junto conosco sempre um guia de aves, já que plantamos em nosso pátio outra nativas daqui, para podermos saber quem são nossos frequentadores mais assíduos e os menos também. Adoramos ter um restaurante a céu aberto gratuito para as aves.
Parabéns pelo artigo.

01/12/2011 às 23:33 Luís Gonzaga - diz:

Interessante essa feijoa. E a flor ainda serve de alimento p/ nossas belas aves!!

02/12/2011 às 11:14 Carla Sabiá - diz:

Você e suas brilhantes novidades . Parabéns

02/12/2011 às 14:23 Sidney - diz:

Fantástico, além de ser uma bela flor que atrai pássaros, faz bem para a saúde, quero experimentar com certeza, novidades sempre são bem vindas, PARABÉNSSSS PELA MATÉRIA

02/12/2011 às 16:12 Rudimar Cipriani - diz:

Nossa, Liana, quantos predicados tem essa tal de feijoa. Mesmo assim eu não conhecia esta planta. Por essa e por outras que este seu blog é tão conceituado.

Grande abraço e muito obrigado por nos contemplar com qualidade e diversidade de informação.

02/12/2011 às 19:12 Rubem Lemos - diz:

Parabéns pelos estudos e pela matéria.
Aonde posso conseguir sementes?
Obrigado.
Forte abraço
RubemLemos

02/12/2011 às 23:53 Liana John - diz:

Olá Rubens
O ideal é plantar mudas, não sei se as sementes vingam facilmente.
Em Santa Catarina, as mudas podem ser obtidas na Epagri ou na UFSC.
Em outros estados ainda não existe uma produção em escala comercial.
Mas estou procurando quem tenha e, quando encontrar, avisarei aqui no blog.
Abraços Liana

03/12/2011 às 02:15 Marcos do A Manfrinato - diz:

Ótima matéria. Ótima também a ideia do Instituto Orbis de montar um restaurante de pássaros. Muito bom!

03/12/2011 às 13:29 Moacyr Castro - diz:

Liana,
Muitosdos segredos da natureza eram belos deconhecidos até você colocá-los no palco iluminado do conhecimento. Muito obrigado!

04/12/2011 às 05:41 Jupira Ferreira de Souza - diz:

Liana,

Gostaria de parabenizá-lá pelo artigo, que trás informações importantíssimas sobre a referida fruta e seus benefícios à saúde.
Moro em Recife uma cidade quente e úmida, e, gostaria de saber se a muda da Feijoa se adaptaria às condições deste ambiente.

Grande abraço,
Jupira Souza

05/12/2011 às 00:21 Liana John - diz:

Oi Jupira
Obrigada por seu comentário.
Quanto à dúvida sobre plantar feijoa em Recife, infelizmente, acredito que não teria muito sucesso. A árvore pode até crescer, mas essa espécie precisa de um certo número de horas de frio para dar frutos como as macieiras e pereiras. O clima de Recife é quente demais durante todo o ano. O jeito seria consumir polpa de frutas cultivadas na região Sul ou doces feitos com a fruta.
Liana

06/12/2011 às 10:44 Marina Deur - diz:

Parabens Liana !
Adorei o artigo. Cheio de informacoes.
Um abracao
Marina da Croacia.

13/12/2011 às 10:03 Marcos Terra - diz:

Até comentário da Croácia tem nesse blog!
Nossa! Maravilha essa saíra e essa bendita feijoa!

19/12/2011 às 13:41 SONIA MARIA BARBOSA - diz:

Olá, adorei a reportagem, mas gostaria de saber onde encontrá-la, estou em Santos, mas vou muito a São Paulo e gostaria de experimentar!!!
Obrigada!!!

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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