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É a volta do cipó de aroeira Liana John - 29/09/2011 às 18:42
Aroeira é uma madeira resistente, dura e pesada, boa para fazer postes e vigas, em construções, e também para “quebrar no lombo de boi fujão”, como ensinam os vaqueiros. O ramo da aroeira, igualmente resistente, porém flexível, é usado como chicote. Serve para espantar os maus espíritos que eventualmente se apoderem de pessoas fragilizadas. E serve como castigo, com o apelido de cipó de aroeira, eternizado no verso de Geraldo Vandré, de protesto contra a ditadura militar nos anos 1960: “Madeira de dar em doido vai descer até quebrar/É a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar”.
(Observação para as novas gerações: Vandré comeu o pão que o diabo amassou por conta dessa canção, que prometia o troco em plena fase de edição do Ato Institucional número 5 – vulgo AI-5 – marco do endurecimento do governo militar no Brasil)
Pois não é que a mesma aroeira de bater, castigar ou vingar funciona também como cicatrizante? E resolve até casos complicados como os do sistema gastrointestinal! Um dos estudos sobre essa particularidade da aroeira-vermelha foi realizado na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR). À frente da equipe estava Itágores Hoffman I. L. S. Coutinho, hoje na Universidade Federal do Tocantins (UFT), onde coordena um grupo de pesquisa em cirurgia do aparelho digestivo com uma linha de projetos só para uso terapêutico de plantas medicinais.
“As cirurgias do cólon e dos intestinos são delicadas, devido à possibilidade de contaminação. Quando emendamos um segmento do intestino a outro, qualquer falha (fístula) na cicatrização pode derivar para vazamentos e prejudicar os órgãos internos, muitas vezes levando a complicações e até a óbito, em casos mais graves”, explica Itágores Coutinho. “Quando a sutura ou a ferida é na pele, o médico consegue avaliar melhor o processo de cicatrização e intervir a tempo. Mas isso já não é possível dentro da cavidade intestinal”.
Um cicatrizante com as qualidades do extrato de aroeira, no entender do médico e pesquisador, ajudaria a garantir um pós-operatório mais tranquilo. Os estudos realizados no Maranhão, com modelos animais, mostraram que o produto não é tóxico e de fato acelera a cicatrização do cólon.
A espécie de aroeira testada tem vários nomes regionais – aroeira-mansa, cabuí, cambuí, fruto-de-sabiá – mas é mais conhecida entre os cozinheiros como pimenta-rosa, pois seus frutinhos fazem sucesso na alta gastronomia, internacional inclusive. O nome científico é Schinus terebenthifolius e a árvore ocorre naturalmente dos estados de Minas e São Paulo até o Rio Grande do Sul, além de ser plantada em muitas cidades, como ornamental.
No experimento, o extrato da entrecasca foi injetado diretamente na área suturada. Coutinho acredita, no entanto, na possibilidade de chegar a um comprimido de uso oral. Ele agora dá continuidade à pesquisa no Tocantins, com outra espécie de aroeira, mais comum por lá: a aroeira-preta (Myracrodruon urundeuva). “A dose é diferente, mas também concluímos que é um cicatrizante viável para cirurgias do sistema gastrointestinal”.
O médico conta com uma equipe multidisciplinar de 12 professores, pesquisadores e alunos, a par da colaboração eventual de pesquisadores de outras instituições. Os recursos são da própria universidade e a expectativa é concluir os testes clínicos dentro de dois a três anos.
Já na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), o farmacêutico Eduardo Roberto Cole testou outro extrato da aroeira-vermelha – agora feito com o óleo dos frutos – como larvicida, inseticida e repelente do mosquito da dengue (Aedes aegypti). A pesquisa foi sua tese de mestrado, concluída em 2008, após 2 anos de estudos. “Na revisão da literatura científica encontrei diversos trabalhos sobre a ação antifúngica e antibacteriana da aroeira-vermelha, mas não havia referências relacionadas à ação contra o mosquito”, conta o pesquisador, atualmente na Coordenação de Extensão do Centro Universitário Vila Velha (UVV).
A intenção de Eduardo Cole é retomar e aprofundar os estudos com a aroeira-vermelha, agora como doutorado, realizando os testes com pessoas, sobretudo para desenvolver o repelente. Ele explica como é o protocolo: “Usamos um tipo de gaiola revestida com mosquiteiro e observamos a quantidade de picadas na mão exposta, com e sem o extrato de aroeira”.
Por estes dois exemplos vemos que fazer o mal ou o bem depende de quem empunha a espada. Ou, no caso, o pedaço de “cipó” de aroeira…
Foto: Liana John (ramo de aroeira-vermelha com frutos)
ver este postcomente
30/09/2011 às 15:29 marcos terra - diz:
Parabéns pela reportagem.
E ainda tiveram o cuidado de colocar o vídeo do Geraldo Vandré…
Parabéns a esses pesquisadores.
Vamos torcer para o IBAMA não prende^-los se não tiverem todo o labirinto burocrático de autorizações hoje exigidos de quem quer estudar a biodiversidade. Quanto mais comercializar… pecado!!@
04/10/2011 às 12:35 Mariana Senna - diz:
Então a aroeira é um “morde e assopra”??? rsrs
Parabéns pela reportagem! Assuntos interessantes e explicações satisfatoriamente esclarecedoras, como sempre!
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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