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Deu praga na praga Liana John - 10/02/2011 às 11:18
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Os inimigos dos meus inimigos são meus amigos. É o que diz o ditado popular, quase nunca verdadeiro na política, mas válido na agricultura. Este é o princípio do controle biológico de pragas, tecnologia que livra água e solo dos efeitos colaterais dos pesticidas e fungicidas químicos, sem causar dano a outros animais e plantas vizinhos às culturas.
Princípio nos dois sentidos, por sinal. É o conceito que norteia a tecnologia e é por onde começam os pesquisadores quando precisam identificar um novo agente para praguejar a praga. Ou uma nova variante do inimigo do inimigo, específica para determinada região.
Para os cafezais do Sul e Sudeste do Brasil, por exemplo, já existem bioinseticidas disponíveis no mercado. Eles contêm o fungo Beauveria bassiana, que infesta e elimina vários insetos-praga. O produto é fruto de muitos anos de pesquisa do especialista Pedro Manuel Oliveira Janeiro Neves, da Universidade Estadual de Londrina (UEL). É vendido em pó, pronto para ser pulverizado com a mesma facilidade e os mesmos equipamentos dos inseticidas químicos.
Ao ser borrifado sobre uma área infestada, o fungo adere ao inseto e penetra em seu organismo, matando em 72 horas. É uma alternativa eficaz contra um besourinho conhecido como broca-do-café (Hypothenemus hampei), causador de grandes estragos porque fura o fruto e as sementes, depositando seus ovos lá dentro. Tanto o inseto adulto como as larvas se alimentam do grão, causando quebra de safra e alteração do sabor da bebida. Os furos por eles produzidos também se transformam em portas de entrada para outros fungos e parasitas, levando ao apodrecimento do café.
O bioinseticida substitui pesticidas químicos à base de endossulfan, um organoclorado de uso proibido no Brasil desde agosto de 2010 devido aos impactos ambientais. Em Rondônia, porém, a variante do fungo disponível no mercado não é tão eficaz. Talvez porque a maior parte do café plantado no Estado é do tipo robusta (conilon), mais suscetível ao ataque dessa broca do que o tipo arábica, predominante na região Sudeste. Ou porque as condições de solo, clima e disponibilidade de água são muito diversas. Ou por todos estes motivos juntos.
Sejam quais forem as razões, na tentativa de diminuir as perdas de até 20% do café colhido o pesquisador José Nilton Medeiros Costa, da Embrapa Rondônia, arregaçou as mangas e começou novamente todo o processo de produção de um bioinseticida.
Primeiro ele foi a campo coletar cepas locais de Beauveria bassiana. Selecionou 34 amostras geneticamente diferentes, em cafezais de vários municípios. E as levou para testar em laboratório, junto com outras 13 variantes obtidas junto à UEL, à Escola Superior de Agricultura Luís de Queiroz (Esalq) e à própria Embrapa (Cenargen), originalmente coletadas no Mato Grosso do Sul e no Rio Grande do Sul. Dessas 47 possibilidades saíram 10 isolantes eficientes, como os chama o pesquisador.
Esses isolantes foram multiplicados em meio de cultura, usando quirera de arroz. Agora, a próxima fase inclui estudos de campo para adequar o controle desta praga às condições de Rondônia, definindo o número de aplicações necessárias: a época favorável para aplicação e outros detalhes do gênero, explica. Como o besourinho se esconde dentro do grão de café, o bioinseticida precisa ser aplicado na época de trânsito, quando os adultos estão saindo dos frutos da safra anterior e voam em busca de frutos novos.
Segundo José Nilton, o bioinseticida adaptado a Rondônia deverá estar no mercado em 3 a 4 anos. Os custos ainda não foram calculados, mas a estimativa preliminar é de que o preço fique em torno de R$ 40,00 o quilo. É o dobro do que custavam os inseticidas proibidos, mas é dez vezes menos do que os substitutos químicos do endossulfan atualmente disponíveis para os cafeicultores.
Sem contar que o fungo Beauveria bassiana é inimigo de várias pragas, mas amigo da biodiversidade local.
FOTO: José Nilton Medeiros Costa (broca-do-café colonizada pelo fungo Beauveria bassiana)
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10/02/2011 às 11:56 Anonymous - diz:
Haroldo Castro – diz:Excelente! HC
10/02/2011 às 17:49 Anonymous - diz:
Isabel Pellizzer – diz:Que maravilha, a notícia deste isolante!O isolante pode ser caro, a principio, mas no final das contas o agricultor sairá ganhando e a natureza também.
10/02/2011 às 18:21 Anonymous - diz:
Izabel Cristina / Porto Velho RO – diz: Liana,parabens!!! Precisamos mostrar que os cidadãos de RO, tem preocupação com o equilibrio e a sustentabilidade dos nossos produtos,pois assim, estamos pensando no consumo consciente como tbem na proteção de nosso meio ambiente. E Parabens ao nosso pesquisador Jose Nilton.
12/02/2011 às 14:50 Anonymous - diz:
Evaristo de Miranda – diz:Muito interessante esse artigo. Mostra todo o itinerário que deve ser cumprido para chegar-se a resultados dessa natureza. Em troca do endosulfan e de outros, vale a pena pagar até 3 vezes. Quem sabe com o tempo esse controle se tornará mais “natural” comr edução da infestação. Parabéns à Liana e ao pessoal da Embrapa Rondônia.
14/02/2011 às 12:24 Anonymous - diz:
João Mangabeira – diz:Tai uma boa notícia! Nunca fui mesmo a favor do controle químico de pragas!! Vale lembrar também que uma agricultura inserida em um ambiente resiliente ou numa paisagem com reservas florestais em blocos como Machadinho, pode se beneficiar de um controle biológico de pragas.J. Manga, pesquisador da Embrapa – CNPM Inté Mangabeira
10/11/2011 às 21:54 Léia Kempim - Cacoal - RO - diz:
Parabéns pelo pesquisa!!!!!!!!!!!! Esta notícia foi muito útil para os meus estudos na Faculdade Engenharia Ambiental em Cacoal, fico feliz em saber que aqui em RO tem pesquisadores preocupados com o controle biológicos de pragas com microorganismos, pois é uma prática ecologicamente correta, assim a natureza e a sociedade serão favorecidas.
Léia Kempim – Cacoal – RO
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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