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Da boca da serpente Liana John - 02/02/2012 às 17:27
Já viu, bem de perto, como é a boca de uma serpente peçonhenta?
Não, nem quero ver! seria a provável resposta de 99,9% dos mortais comuns. Mas o biólogo Roner José Salvador e a equipe do Laboratório de Design e Seleção de Materiais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (LdSM/UFRGS) fazem parte dos outros 0,1%.
Não contentes em examinar bem de perto como uma jararacuçu abre a boca (num ângulo de 165 a 170 graus!), eles fizeram tomografias e imagens em três dimensões, num scanner especial, e recorreram a um crânio cedido pela Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul. Tudo para estudar o funcionamento das articulações das mandíbulas, atrás de inspiração para o desenvolvimento de uma dobradiça especial para móveis.
A jararacuçu (Bothrops jararacussu) é da família da jararaca e ocorre do Sul da Bahia ao Rio Grande do Sul. Não é muito grande – em geral mede 1,5 metro – e é muito boa na camuflagem: praticamente “desaparece” no chão da mata, com seu padrão de cores idênticas ao das folhas mortas. Alimenta-se de roedores e anfíbios, que caça com botes longos e certeiros, graças às tais articulações das mandíbulas. A combinação de boa camuflagem e bote longo, porém, também se traduz em muitos acidentes com pessoas e animais domésticos.
“As dobradiças especiais de móveis com alto grau de abertura, usadas no Brasil, são todas importadas. A maioria vem de países europeus, como Itália, Áustria e Alemanha”, conta o engenheiro mecânico Wilson Kindlein Júnior, que tem mestrado e doutorado em Engenharia de Materiais, pós-doutorado em Design Industrial pela École Centrale de Lille (França) e é o coordenador do LdSM. “Por meio da Biomimética – que busca informações e modelos na natureza para transformar em objetos – desenvolvemos uma dobradiça com menos peças e menos material do que as importadas”.
A equipe comparou o movimento das mandíbulas da serpente, e sua maneira de abrir, com as dobradiças. Em seguida, mediu os ângulos formados em relação ao crânio. As articulações das patas de caranguejos também serviram como modelo. Só depois de estudar todos os detalhes foram desenhadas novas dobradiças com o objetivo de diminuir o número de peças que compõem o produto final; facilitar o transporte e a estocagem; simplificar a montagem dos móveis e reduzir o descarte de peças mal manuseadas.
A diferença no número de peças é a mais significativa: as dobradiças importadas são compostas de 20 peças enquanto a nova tem apenas 11. Isso deve baratear o custo, numa produção em escala, embora a equipe da UFRGS não tenha feito esta avaliação econômica. Eles fizeram – isso, sim – diversos protótipos, submetidos a uma bateria de testes de eficiência e de resistência ao abrir e fechar.
As versões aprovadas podem ser feitas apenas de aço e zamak (liga de alumínio, cobre, magnésio e zinco) diferentemente das dobradiças importadas, que também têm plástico. “Usamos menos materiais, quer dizer, a produção demanda menos recursos naturais e menos energia, portanto, é mais adequada do ponto de vista ambiental”, acrescenta Kindlein Jr. Além disso, sem o plástico, a reciclagem pós-consumo é mais viável.
As dobradiças “de jararacuçu” podem ser utilizadas em móveis de cozinha, bibliotecas ou mesmo em peças automotivas. “Cheguei a entrar em contato com algumas indústrias, mas ainda não encontrei interessados no desenvolvimento”, diz o engenheiro mecânico. Em princípio, a questão é de escala, pois, no país, é mais comum encontrar seguidores do mercado internacional, ou seja, fabricantes que simplesmente copiam peças e produtos trazidos do exterior.
O projeto de pesquisa biomimética envolveu 6 pesquisadores de diferentes áreas – Engenharia Mecânica, Engenharia de Materiais, Design e Biologia. Garantiu o título de mestre a Roner Salvador e o depósito de uma patente ao laboratório. Os recursos vieram do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Em tempo: A jararacuçu usada pela equipe do LdSM nas tomografias e na digitalização do scanner 3D estava morta e fixada in vitro. Já a jararacuçu das fotos estava vivinha e muito bem cuidada pelo criador Guilherme Guidolin Galassi, a quem vai meu agradecimento especial.
Fotos: Liana John ( jararacuçu ou Bothrops jararacussu)
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02/02/2012 às 18:23 Ivan Sazima - diz:
Parabéns, Liana!
Continue com matérias de abrir a boca
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02/02/2012 às 18:46 Paulo D. Branco - diz:
Liana, parabéns pela matéria! Um ótimo exemplo das competências que já temos no Brasil e do quanto precisamos avançar na integração empresas/academia. Torço para que esses protótipos se transformem em produtos.. abs
02/02/2012 às 18:57 José Sabino - diz:
Adorei este post, Liana! Bioinspiração tem tudo a ver com o mundo que busca novos modelos de sustentabilidade, baseados na simplicidade e inovação.
02/02/2012 às 20:47 Dinah - diz:
Outra matéria interessante! Parabéns.
02/02/2012 às 22:04 Liana John - diz:
Obrigada! Gostei muito de fazer esta matéria, o trabalho é realmente inspirador! Fico muito honrada com a visita do Ivan Sazima e do José Sabino, dois grandes pesquisadores (e defensores) da nossa biodiversidade!
02/02/2012 às 22:38 Lia Inês Bittelbrun - diz:
Que interessante! Parabéns a todos!
03/02/2012 às 00:18 Luccas Longo - diz:
A mordida que se desdobra em dobradiça é apenas um, dentre milhares de exemplos do potencial da biodiversidade!
03/02/2012 às 07:49 Otavio - diz:
Pois é, com milhões de anos de evolução a natureza costuma sempre estar a nossa frente. Mais um bom exemplo com cobras e sem ser com o seu veneno. Parabéns pela matéria….
03/02/2012 às 08:15 Liana John - diz:
Grata pelo comentário Otavio Marques. Todos nós devemos muito a você e ao Butatan cujo trabalho não se restringe a salvar vidas humanas com a pesquisa de soros e medicamentos, mas também a salvar a vida das serpentes (e outros animais peçonhentos) com a divulgação de informações corretas sobre sua importância para o equilíbrio dos ecossistemas.
03/02/2012 às 09:25 Rudimar Cipriani - diz:
Parabéns, Liana por mais este post pra lá de interessante.
03/02/2012 às 11:48 Catarina Menucci - diz:
Pois é , basta olhar em volta na” nossa natureza” e temos muitas respostas e fonte s de inspiração eficazes, inteligentes e belas!
Parabéns pela matéria.
03/02/2012 às 20:15 Guilherme Guidolin Galassi - diz:
Parabéns pela matéria, muito legal. Obrigado por divulgar meu criadouro que sempre esta de portas abertas para auxiliar em trabalhos sérios como este.
05/02/2012 às 17:57 Moacyr Castro - diz:
Cara porta voz da Natureza,
É o bicho mais citado na Bíblia. Perdi a conta quando cheguei a 113, desafiado pelo saudoso cientista Carlos Laure, da USP Ribeirão. Já havia entrado no Segundo Testamento.
Na segunda metade dos anos 70, o Globo Repórter fez reportagem muito intreressante com a jararaca ilhoa, encontradiça (para rimar com dobradiça) na ilha Queimada Grande, altura de Santos. Ela não erra o bote, graças aos sensores de cada lado da face. Morte certa. Estive lá e dormi na casa do marinheiro-administrador. Ele me confirmou a história passada pela reportagem. Foram o sensores dessa a cobra que “inspiraram” a Nasa que pesquisava como garantir a dirigibilidade do módulo lunar, no primeiro pouso do homem na lua.
Liana, sei que todo mundo sabe e vc sabe tudo, mas eu não sei: qual a diferença entre cobra e serpente? Não vale dizer que a serpente serve para pentear os cabelos da gente…
Parabéns!!!
05/02/2012 às 19:02 Liana John - diz:
Oi Moacyr, grata pelo comentário e pela dica: vou investigar a história da jararaca-ilhoa com a Nasa para compartilhar com os leitores de Biodiversa.
Quanto a cobras e serpentes a diferença é como a que existe entre aves e passarinhos. Serpentes é o termo genérico pelo qual chamamos, em português, os répteis da ordem Squamata e subordem Serpentes, que incluem várias famílias e um bom punhado de gêneros.
Já cobra é o termo genérico usado para designar apenas as serpentes de um gênero: Naja. Aplica-se, no máximo, à família Elapidae, que inclui as najas e as corais.
Ou seja todas as cobras são serpentes mas nem todas as serpentes são cobras, porque só são cobras as najas e as corais.
Do mesmo modo, aves é o termo genérico pelo qual chamamos, em português, todos esses animais com bicos e penas, voem ou não, do avestruz ao beija-flor. Já pássaros ou passarinhos são apenas as aves da ordem Passeriformes que é uma dentre as vinte e poucas ordens de aves existentes.
Saíras e tangarás são passarinhos, mas pica-paus e papagaios não, nem avestruzes ou beija-flores.
Todos os pássaros/passarinhos são aves mas nem todas as aves são passarinhos.
Ajudei ou embaralhei mais?
06/02/2012 às 10:36 Isabel Pellzzer - diz:
Que interessante, Liana, parabéns! De certa forma vc também se inspira na bocarra aberta das serpentes, informando e conscientizando as pessoas da importância e valor da biodiversidade. De boca em boca chegamos lá…Abraço!
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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