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Curauá enfrenta até terremoto! Liana John - 09/02/2012 às 17:26
Alguns o chamam de curauá, de nome científico Ananas erectifolius. Outros dizem que é o próprio abacaxi (Ananas comosus), porém lá no Pará cresce com as folhas bem eretas, então é para considerar apenas uma variedade (Ananas comosus variedade erectifolius) e não uma espécie à parte. O fato é que o nome não conta muito na hora da “precisão”, como dizem os caboclos.
O que conta mesmo é a resistência da fibra do curauá, comparável à da fibra de vidro, senão mais resistente, pois até viga para construções em regiões sujeitas a terremotos já testaram com sucesso!
Diversos pesquisadores avaliaram e ainda avaliam as aplicações da fibra do curauá, no Brasil. E pelo menos um grupo obteve patente internacional: a equipe do químico Marco Aurélio De Paoli, do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Segundo ele, “a fibra do curauá pode substituir a fibra de vidro em compósitos à base de plástico com a vantagem de consumir menos energia no processo de fabricação e vir de uma fonte vegetal, renovável, enquanto a fibra de vidro é de origem mineral”.
“Os custos das duas fibras são semelhantes, mas se considerarmos o processo todo, o curauá é mais barato e ainda pode servir para sequestrar carbono na,s plantações comerciais”, acrescenta. Ele só chama a atenção para o fato de o compósito ser feito com plástico e, portanto, não ser biodegradável. “Não basta um dos componentes ser biodegradável para tornar o compósito biodegradável”, adverte.
Ao comparar as características das duas fibras, De Paoli observa que a densidade do curauá é menor do que a da fibra de vidro. “Mas fizemos todos os testes aqui na Unicamp – de durabilidade, de resistência mecânica – e concluímos que o curauá pode substituir a fibra de vidro em todas as aplicações”.
Fibra de vidro, na verdade, é um aglomerado de filamentos de material cerâmico à base de sílica, que não são rígidos como o vidro, mas altamente flexíveis. Quando misturados a resinas plásticas, esses filamentos de vidro formam o que chamamos de Polímero Reforçado com Fibra de Vidro (ou PRFV, para os “íntimos”).
Este material resiste bem a impactos, tração e flexão; não enferruja nem se deteriora em meios agressivos ou quando exposto a intempéries; serve como isolante, pois não conduz eletricidade, e ainda permite moldagem.
No caso específico da patente obtida, os pesquisadores trabalharam junto com técnicos de uma empresa fabricante de peças automotivas, testando compósitos termoplásticos para fazer a parte interna do teto e das portas dos automóveis, assoalhos e colunas, assim como a estrutura do quebra-sol e do porta-treco. Os recursos vieram da empresa e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Diversos outros usos estão em desenvolvimento, tanto na Unicamp como em outras instituições. “A fibra de curauá é superior ao algodão e serve para coisas tão variadas como reforçar garrafas PET; compor materiais de construção, fabricar solas de calçados ou substituir o amianto de caixas d’água”, afirma Osmar Alves Lameira, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, de Belém (PA). Ele é responsável por uma nova variedade da planta – o Curauá Embrapa – a ser lançada em setembro deste ano.
A variedade comercial é clonada (uniforme) e não tem espinhos nas folhas, uma grande vantagem para quem planta e, sobretudo, para quem colhe. Com o lançamento, Lameira espera incentivar novos produtores de curauá no Estado. “A planta não é exigente quanto ao solo, dá o primeiro corte em um ano e a partir daí pode ser colhida de três em três meses durante uns 6 a 7 anos! Só precisa de calor, pois as folhas – de onde é tirada a fibra – são sensíveis ao frio”, explica. “Em outras palavras é uma plantação ideal para a região Norte e, talvez, parte do Tocantins e Nordeste, onde o período de estiagem não for superior a 60 dias. É uma boa alternativa de renda; dá emprego (a colheita é manual) e tem demanda”.
De acordo com as estimativas apenas da indústria automobilística, “a demanda mensal seria de cerca de 500 toneladas de fibra seca, pronta para uso, mas o Pará produz apenas 24 toneladas/mês”, afirma Lameira. “Não entendo porque não se investe maciçamente nesta cultura. Só o Amazonas está se movimentando neste sentido”.
Ficamos aqui, na torcida para a aposta agronômica dar certo, garantindo um lugarzinho em nossos veículos – e casas – para a fibra amazônica. No futuro, a torcida é para a pesquisa de materiais cheguar a um compósito que – além de leve, resistente e moldável – seja também biodegradável. Aí sim, poderemos descascar o abacaxi da reciclagem desse material com um pé nas costas!
Foto: Liana John (planta do gênero Ananas em Jacareacanga – Pará)
Osmar Alves Lameira e a variedade de curauá sem espinhos Foto: Embrapa
Mudas de curauá prontas para plantio Foto: Embrapa
Fibras de curauá já processadas Foto: Embrapa
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10/02/2012 às 09:01 Isabel Pellzzer - diz:
Que maravilha, agora teremos fibra de abacaxi nos blanks da varas de pesca e no cabo sabugo de espiga de milho! Cabo feito de sabugo eu já vi e fica muito bonito. Também fico na torcida de um polímero biodegradável! Parabéns, Liana! Abraço!
10/02/2012 às 12:48 José Sabino - diz:
Oi Liana:
O carauá é exemplo de uso criativo, sustentável e em escala industrial da biodiversidade brasileira. Parabéns pelo post e por difundir a cultura da sustentabilidade.
Abraços. José Sabino
10/02/2012 às 15:10 Rudimar Cipriani - diz:
Mais uma aula de conhecimento sobre biodiversidade. Parabéns, Liana.
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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