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Para curar qualquer ferida Liana John - 07/07/2011 às 12:08
Os barcos das
Reentrâncias Maranhenses têm as velas tingidas de vermelho e não é por simples
opção estética. O tecido de algodão usado nas velas é tratado com os taninos
das cascas de mangue-vermelho (Rhizophora mangle), que o tornam mais resistente
às intempéries e à maresia e menos suscetível ao apodrecimento. Alguns barcos
chegam a ter velas cor de vinho, quase pretas, de tão curtidas!
Mas a proteção de
tecidos não é a única serventia de uma das árvores de mangue mais abundantes em
nosso vasto litoral. Os mesmos taninos das cascas são usados por populações
tradicionais na cicatrização de feridas. Eles têm essa propriedade
cicatrizante, formando uma espécie de polímero que protege a ferida e permite a
cicatrização por baixo da camada protetora, confirma o biólogo Felipe Meira de
Faria, mestre em Farmacologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),
cujo tema do doutorado é o potencial medicinal do mangue-vermelho. Além disso,
os taninos têm uma atividade antibacteriana muito interessante e já existem
diversos trabalhos em andamento com plantas do mesmo gênero, que ocorrem na
Ásia e na América Latina.
Felipe Faria
concentrou seus estudos na cicatrização de úlceras gástricas e no controle de
inflamações intestinais. Como vimos no blog da semana passada, úlceras exigem
tratamentos longos e são de difícil cura, pois é o próprio suco gástrico que
ataca as paredes do estômago e a tendência é da lesão voltar sempre que há
qualquer desequilíbrio. A possibilidade de ir além dos medicamentos de
prevenção e de convivência com a doença, chegando a um produto cicatrizante é
uma excelente notícia.
Nossas pesquisas
são baseadas em etnofarmacologia, portanto procurei referências de uso
medicinal do mangue-vermelho em diversas localidades e encontrei menções ao
emprego na cicatrização de úlceras em Cuba, conta ele. No Brasil, o uso mais
comum é para curtir couro e tecidos de algodão, mas há algumas referências
medicinais também, principalmente no litoral do Nordeste, em Alagoas.
A partir dessas
informações, Felipe passou a trabalhar na identificação das moléculas que
promovem a cicatrização, com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado
de São Paulo (Fapesp) e sob orientação da pesquisadora Alba Regina Monteiro
Souza Brito, da Unicamp. A produção de taninos pela planta está associada a
mecanismos secundários, de proteção da planta, então às vezes há alterações
regionais, mesmo em se tratando da mesma espécie, comenta.
Para identificar
as moléculas mais ativas, primeiro é preciso obter um extrato. As cascas são
colocadas em estufa de herbário, sempre a temperaturas inferiores a 40 graus
centígrados para evitar a degradação de qualquer componente químico. Depois de
secas, as cascas são pulverizadas e submetidas à extração com solvente
acetona ou etanol. O extrato então é testado quanto à dose/resposta e depois
são testadas também suas frações até a identificação do princípio ativo.
A fração
butanólica foi a de melhor resposta. Obtivemos bons resultados com apenas meio
miligrama em modelos animais. Isso é uma dose muito baixa, 60 vezes menor do
que a dos medicamentos disponíveis. É sinal de que podemos obter uma droga de
efeito bastante específico, com poucos efeitos colaterais, observa Felipe. Ele
destaca ainda outro aspecto interessante: a possibilidade de manejo racional do
mangue para a retirada da casca. Os pedaços de casca necessários para produção
do extrato são pequenos e podem ser retirados de modo sustentável, sem matar a
árvore. Os próprios taninos promovem a cicatrização da casca, fechando as
pequenas áreas de retirada com muita rapidez, desde que se saiba como cortar,
diz.
O pesquisador
acredita que o potencial farmacológico pode agregar valor ao mangue-vermelho,
contribuindo para sua proteção. Este foi, inclusive, um dos motivos pelos quais
escolheu trabalhar com a espécie desde sua iniciação científica, ainda na
graduação, na Universidade Santa Cecília, em Santos, em 2005. Ali fica a
primeira área de mangue transformada em Área de Preservação Permanente, em 1966,
lembra.
A tese de
doutorado deve ser defendida apenas em 2013. Mas desde já torcemos para que
Felipe esteja certo e os taninos do mangue-vermelho sirvam para cicatrizar
tanto as feridas de enfermos como as falhas na proteção aos manguezais brasileiros!
Foto: Felipe
ver este postcomente
Meira de Faria (mangue-vermelho – Rhizophora mangle)
10/02/2012 às 18:38 ana luisa - diz:
que incrivel rarara…
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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