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A criativa defesa das pererecas Liana John - 11/11/2010 às 11:11
Viver entre a água e a terra exige dos anfíbios boa capacidade de adaptação. É preciso se proteger dos predadores de ambos os ambientes e também resistir a doenças causadas por bactérias e fungos, abundantes, variados e sempre prontos para atacar. Para complicar, a respiração dos anfíbios se dá pela pele, o que significa alta permeabilidade e risco ainda maior de contaminação.
Sem recursos de garras ou dentes contra os predadores, nem roupas e luvas isolantes contra os patógenos, os anfíbios se tornaram mestres em defesas químicas. Possuem glândulas capazes de produzir uma ampla gama de compostos bioativos, adaptados contra as ameaças particulares do ecossistema onde vivem.
Em geral, combinam substâncias destinadas a causar mal estar ou apresentar sabor/cheiro ruim, como estratégia de defesa contra predadores, e compostos destinados a matar os micro-organismos nocivos, como estratégia de defesa contra doenças.
Desnecessário dizer que tais compostos são quase uma biblioteca de opções para pesquisadores interessados em desenvolver fármacos de todo o tipo. É o que faz a equipe do Laboratório de Espectrometria de Massa, na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), composta por quatro pesquisadores, um analista e 26 estudantes de graduação e pós-graduação.
O biólogo especializado em nanotecnologia, Luciano Paulino da Silva, membro dessa equipe, destaca como promissoras as pesquisas em andamento com três espécies de pererecas brasileiras do gênero Phyllomedusa: P.tomopterna, P. rohdei e P. burmeisteri.
Buscamos na natureza a inspiração de bioestruturas e modelos de macromoléculas e utilizamos a informação para desenvolver produtos ou processos tecnológicos. A partir dos modelos naturais modificamos ou desenhamos moléculas em laboratório, obtendo a atividade desejada, explica Silva. No caso dos anfíbios assim como muitos outros animais silvestres não é possível trabalhar com o material natural, pois não se obtém quantidades suficientes e seria predatório.
Em outras palavras, apenas a bioprospecção é feita com as substâncias naturais, recolhidas da pele dos animais, por lavagem, e depois liofilizadas e purificadas. Uma vez comprovada alguma atividade de interesse, o caminho é sintetizar as moléculas análogas em laboratório e deixar as pererecas em paz.
Entre os compostos de defesa das três filomedusas foram encontradas diversas bradicininas (10, em média, para cada espécie), provavelmente associadas a mecanismos de defesa contra predadores. Ao abocanhar uma perereca dessas, tanto mamíferos como serpentes podem experimentar dor e desconforto, além de sentir contrações dos músculos lisos (sistema digestivo), sendo induzidos a regurgitar a presa.
As bradicininas de laboratório, inspiradas nas naturais, foram estudadas por Nathália Mundim, da Universidade de Brasília (UnB), em sua tese de mestrado sob orientação de Luciano Paulino da Silva. Mostraram atividade contra câncer de boca, possivelmente através da redução da alimentação do tumor (via vasos sanguíneos). Nathália também fez testes com amostras de sangue humano do tipo O positivo, e os compostos não apresentaram toxicidade.
Restam muitos estudos e testes a realizar até chegar a um medicamento, mas a promessa é boa. A equipe notou, igualmente, forte atividade hipotensora, ou seja, há possibilidade de obter um fármaco contra hipertensão. Sem contar as atividades contra infecções, antibacterianas, fungicidas e assemelhadas.
O pesquisador explica, ainda, que a absorção desses compostos presentes na pele das pererecas é muito rápida. Assim, sua viabilização como fármaco depende de uma forma eficiente de encapsulamento, capaz de dosar a liberação do princípio ativo.
Para resolver o problema, a equipe trabalha com nanocápsulas de quitosana, um material derivado das carapaças de crustáceos (Veja o blog Derramou petróleo no mar? Camarão nele!, de 22/07/2010). As nanocápsulas de quitosana permitem criar um sistema de liberação controlada dos princípios ativos, com entrega seletiva diretamente no local que requer tratamento, acrescenta o especialista. Isso significa produzir comprimidos (uso interno) com a possibilidade de liberar doses contínuas de forma prolongada, à semelhança dos adesivos com hormônios (uso externo). E a quitosana ainda tem a vantagem de ser fácil de eliminar, porque é biodegradável.
Conclusão: Nada como pererecas bem resolvidas em questão de defesa individual para abrir um bom leque de possibilidades criativas para a indústria farmacêutica!
FOTO 1: Germano Woehl Jr/Instituto Rã-Bugio (Phyllomedusa distincta)
FOTO 2: Tatiana Freitas Fioravante, Kelliane Almenida Medeiros e Luciano Paulino da Silva/Cenargen (imagem de microscopia de força atômica mostrando nanocápsulas de quitosana com peptídeo de anfíbio)
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11/11/2010 às 11:59 Anonymous - diz:
Haroldo Castro – diz:O sistema de defesa das pererecas (e dos anfíbios em geral) é fabuloso! Mas as substancias podem até matar, como as produzidas pelas rãs Dendrobates. O liquido expelido pela Dendobrates azureus (Suriname) é usado pelos indigenas para caçar. Valeu.
11/11/2010 às 12:09 Anonymous - diz:
Flavia Castro – diz:Obrigada Haroldo por encaminhar o link para esse blog. Realmente é muito interessante. Parabéns Liana! Irei acompanhar. Beijos
11/11/2010 às 12:26 Anonymous - diz:
Luis Gonzaga Truzzi – diz:As pererecas são impressionentes mesmo! Me lembrei do cd que recebi de um hóspede : ” Love songs of Texas frogs” !Gostei muito de sua dica tb !!Abraços,Zaga.
11/11/2010 às 13:22 Anonymous - diz:
Richard Sotero – diz:Fantástica essa matéria! E quanta informação! Não sei como a jornalista consegue tantas informações sobre um tema como esse. E parabéns aos pesquisadores.
11/11/2010 às 14:21 Anonymous - diz:
Rudimar Cipriani – diz:Super interesante o artigo. A cada matéria sua postada aqui mais me surpreendo com o leque de possibilidades proporcionadas pela nossa biodiversidade. Mais do que informação, mais do que conhecimento, seus artigos nos remetem a uma reflexão do quanto é importante cuidarmos e preservarmos cada ser por mais discreto e insignificante que possa paracer. Via de regra, por pura falta de informação, anfíbios são seres injustamente desprezados e vistos como animais abomináveis. Quem sabe, cientes da sua real importância, tanto para o equilíbrio dos ecossistemas, quanto para as pesquisas visando a descoberta de novos fármacos, possamos ver despertar uma nova consciência e uma nova visão desses tão discriminados seres. Por isso, Liana, é tão relevante e dignificante seu empenho em difundir essas importantes informações.
11/11/2010 às 16:06 Anonymous - diz:
Marcia Pimenta – diz:O Lula precisa ler isso! Assim ele entende de uma vez por todas pq a biodiversidade é importante….
11/11/2010 às 18:18 Anonymous - diz:
isabel pellizzer – diz:Adorei ler esta matéria e os comentários também. Valeu Liana, parabéns!
07/03/2011 às 23:31 Anonymous - diz:
Silvana – diz:Moro em chácara e a espécie Hypsiboas Multifasciatus, que tinha abundantemente, sumiu do meu quintal. Há alguma explicação provável para isso??? Nestas últimas chuvas não tenho mais visto nem os sapos!!!
02/04/2011 às 16:39 Anonymous - diz:
Criativa defesa pererecas 273100_post.. He-he-he
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22/04/2011 às 09:39 Anonymous - diz:
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29/04/2011 às 02:20 Anonymous - diz:
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31/05/2011 às 16:00 Anonymous - diz:
Thanks for shanrig. What a pleasure to read!
01/06/2011 às 05:22 Anonymous - diz:
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01/06/2011 às 05:28 Anonymous - diz:
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02/06/2011 às 20:30 Anonymous - diz:
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Criativa defesa pererecas 273100_post.. WTF?
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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