Biodiversa

Publique
o selo
no seu blog

Coquinhos para encher o tanque Liana John - 14/04/2011 às 13:11

A transformação de óleos vegetais em biodiesel abriu as portas para diversas versões do biocombustível, hoje misturado à proporção de 5% no velho diesel derivado de petróleo, aqui no Brasil. Óleo de soja, óleo de amendoim, óleo de girassol, óleo de palma, todos eles servem para movimentar motores, com vantagens ambientais: reduzem emissões de gases-estufa, são renováveis e seus resíduos são biodegradáveis e não tóxicos.

O porém é a competição com o uso alimentar, quando esses óleos vão direto para o tanque, sem fazer escala na cozinha. Há um certo receio de que as melhores terras sejam destinadas unicamente à agroenergia – mais rentável – em detrimento do plantio de alimentos. Mas, e se a planta produtora de biodiesel fosse uma palmeira rústica, nativa, que pode ser plantada em consórcio com milho, mandioca, arroz e fruteiras tropicais (manga, maracujá, mamão) e ainda rende mais óleo por hectare do que a soja?

Pois esta palmeira existe e é a principal aposta do Propalma, projeto de incentivo à pesquisa de oleaginosas brasileiras para biodiesel lançado neste início de abril pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), envolvendo oito unidades da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e oito universidades. Trata-se da macaúba (Acrocomia aculeata), uma palmeira comum no Cerrado, com muitas populações espontâneas bastante densas em São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás e Tocantins. A espécie nasce sozinha inclusive em pastos abandonados e recém-queimados, provavelmente dispersada pelo gado.

O óleo da polpa de macaúba já se provou eficiente como biodiesel, nos testes de laboratório. A produtividade observada nos macaubais nativos também impressiona: de acordo com uma avaliação feita pela Embrapa, a produção de óleo por hectare, por ano, pode chegar a 5 toneladas, 10 vezes mais do que a soja!

“Existem áreas de ocorrência natural com cerca de mil palmeiras por hectare, sendo que cada uma produz 2 a 10 cachos de 20 a 30 quilos de coquinhos por ano”, comenta Paulo Kageyama, pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP) de Piracicaba (SP). “Estamos acompanhando 120 palmeiras de três populações diferentes para medir a produtividade e avaliar as melhores condições para extração do óleo”.

Como qualquer planta não domesticada, as macaúbas têm produtividade muito variada. Uma palmeira dá 2 cachos de 20 kg (40 kg) por ano enquanto outra, ali ao lado, rende 10 cachos de 30 kg (300 kg). Por isso uma das linhas de pesquisa em andamento visa selecionar as palmeiras mais produtivas. E também está à procura de matrizes sem espinhos, para facilitar a coleta dos cachos, retirados quando ainda não estão totalmente maduros.

Outra linha de pesquisa visa estabelecer um sistema agroflorestal, no qual a macaúba é plantada junto com diversas espécies de alimentos, na mesma área. O projeto piloto, coordenado por Kageyama, conta com recursos do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e apoio técnico da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) de Presidente Prudente.

São 12 plantios em lotes de quatro assentamentos distintos, no Pontal do Paranapanema, extremo oeste de São Paulo. Em média, cada lote tem 15 hectares, mas o experimento ocupa um ou dois, por enquanto. “O carro-chefe é a macaúba para biodiesel. Plantamos 500 palmeiras por hectare, bem espaçadas, para elas não ‘afogarem’ as outras culturas, de fruteiras tropicais e de alimentos”, explica o pesquisador. “Já estamos terminando a primeira fase e devemos reproduzir o sistema agroflorestal em 100 lotes, ainda este ano. Além disso, os primeiros assentados querem ampliar o plantio em seus lotes”.

Indústrias esmagadoras também estão de olho nos resultados. São empresas fabricantes de óleo de amendoim e palma, cujo maquinário pode extrair óleo de macaúba sem necessidade de grandes adaptações. “A palma (dendê) ainda é mais produtiva, cerca de 20% mais, porém trata-se de uma cultura muito exigente em água, de clima tropical úmido, enquanto a macaúba é de clima tropical seco, uma grande vantagem para plantio no Cerrado”, avalia Paulo Kageyama. “E a produtividade pode aumentar quando a macaúba for selecionada e domesticada. Além disso, há a vantagem da rusticidade: a espécie não tem doenças ou pragas importantes, mesmo em populações adensadas. Podemos trabalhar com o plantio, onde a palmeira não existe, ou o enriquecimento, onde ela já ocorre, de forma a aumentar a produtividade.”

A par da macaúba, o Propalma incentiva a pesquisa com outras três palmeiras brasileiras consideradas promissoras: tucumã, inajá e babaçu. O apoio financeiro é da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e os experimentos se desenvolvem no Paraná, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Piauí, Maranhão, Pará, Amapá, Amazonas e Roraima. Junto com o óleo para biodiesel, das 4 espécies de palmeiras também podem ser aproveitados outros subprodutos, como o óleo da amêndoa para cosméticos, cascas para carvão, torta da polpa para ração animal, etc.

Em um futuro muito próximo, portanto, catar coquinho será uma atividade nobre, ambientalmente correta e geradora de renda, sem ameaçar a segurança alimentar. Ou, pelo menos, é o que esperamos…

Foto: Liana John (cacho de macaúba)

ver este postcomente

Comentários

14/04/2011 às 13:49 Anonymous - diz:

Rogerio R. Ruschel – diz:Grande matéria, Liana – e viva a macaúba. Este pais é realmente uma potencia em biodiversidade!

14/04/2011 às 13:58 Anonymous - diz:

Sergio Viegas – diz:Que iniciativas como o ProPalma se multipliquem e incentivem a preservação da nossa biodiversidade!

14/04/2011 às 14:40 Anonymous - diz:

Antonio Carlos Cavalli – diz:A macaúba está em boas mãos. Paulo Kageyama é um cientista de primeira grandeza.

14/04/2011 às 21:41 Anonymous - diz:

Isabel Pellizzer – diz:Quantas vantagens temos com a macaúba! Maravilha, Liana!Acredito que também possa ser implantada em projeto de recomposição de Reserva Legal e ser explorada comercialmente. Com quanto tempo, idade, ela começa a produzir coquinhos?

14/04/2011 às 22:03 Anonymous - diz:

Liana John – diz:Como é uma planta ´rustica pode ser plantada até para recuperação de áreas degradadas. A produção começa em torno de 7 anos e tem diversas palmeiras que têm duas safras por ano!

14/04/2011 às 22:04 Anonymous - diz:

Liana John – diz:Como é uma planta ´rustica pode ser plantada até para recuperação de áreas degradadas. A produção começa em torno de 7 anos e tem diversas palmeiras que têm duas safras por ano!

15/04/2011 às 12:19 Anonymous - diz:

Ilio Montanari Jr. – diz:muito legal a matéria. Quantas possibilidades para gerar renda, de maneira sustentável e socialmente justa, oferece a flora brasileira! Precisamos aproveitar esta riqueza investindo, estudando, trabalhando, domesticando, como vem sendo feito com a macaúba.

15/04/2011 às 16:47 Anonymous - diz:

Eduardo Abouchar – diz:Bela matéria. Esperamos que com o plantio de novas areas possamos também alimentar mais pássaros e recuperar inclusive espécies em risco.

20/04/2011 às 21:27 Anonymous - diz:

Alfredo da Cunha Pereira – diz:Parabéns Liana.Gostaria de lhe dizer que a Cocal é precursora desta atividade preservacionista de comprar coco macaúba de extrativistas e processar o óleo e subprodutos.Estamos a 6 anos nos dedicando a esta atividade. Precisamos de mais investimentos nesta área para viabilizarmos a atividade.ParabénsAlfredo.www.cocalbrasil.com.br

31/05/2011 às 13:39 Anonymous - diz:

I bow down hmubly in the presence of such greatness.

01/06/2011 às 06:12 Anonymous - diz:

hVakFz bdmhlbwsyjqv

01/06/2011 às 06:18 Anonymous - diz:

hVakFz bdmhlbwsyjqv

Deixe aqui seu comentário: Preencha os campos abaixo para comentar, solicitar ou acrescentar informações. Participe!

Enviar

BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

Posts anteriores

• Uma ponte para dois remédios

• Guanandi reabilita a várzea amiga

• Coração forte como um touro

• Para viajar sem jet lag

• Mensageiras das boas águas

• Os poderes ocultos do X-Caboquinho

• Do couro n’água ao couro d’água

• Descole, se for capaz

• Frutas com veneno, nunca mais!

• Uma invasora contra invasões

• Larica de priprioca

• Em passo de formiguinha…

• O toque de Midas da bromelina

• Curauá enfrenta até terremoto!

• Da boca da serpente

• Com mulungu, mamulengo é moleza!

• Com mandacaru não tem água turva

• Pode comer que… é batata!

• Um catavento contra o câncer de laringe

• Enfim um fim para micoses teimosas!

• A volta por cima da velha piaçava

• Quando a ferroada vira remédio

• Feijoa: guardem bem este nome!

• A proteção está no bagaço

• Coco no cabelo, casca no churrasco

• Novo etanol sairá do solo amazônico

• Caju com resíduos faz do piso à telha

• O macaco está certo!

• Sujeira da grossa pede bactérias faxineiras

• O conservante dos conservadores de beleza

• Com baguaçu, a febre vai pro brejo

• É a volta do cipó de aroeira

• Bom para bumbum de bebê

• Pimenta-de-macaco ajuda até a descascar abacaxi sem surpresas

• Quem disse que pau oco não faz milagre?

• Sinal vermelho para o sol

• Comigo ninguém pode… nem mesmo a poluição!

• Vacinar o cão para proteger o dono

• De veneno a fortificante

• Na horta marinha brota saúde e renda

• Patauá é prazer de cama e mesa!

• A saúde é índigo blue

• A inspiradora flexibilidade do pirarucu

• Para curar qualquer ferida

• Pau-terra contra os efeitos do estresse

• Viva São João! Lá no alto e aqui no chão!

• Bicão high-tech

• Erva pra cabeça, por dentro e por fora

• Há males que vêm pra bem

• Tucupi, tacacá e tá na cara

• Esse chá de cogumelo é do bom!

• Um dedal de esperança contra alergias

• Só uma santa para derrotar a celulite!

• Mosquitos contadores de histórias

• Tremiliques da grumixava

• Coquinhos para encher o tanque

• O rapa das bactérias mineradoras

• Pimenta na salmonela dos outros é antisséptico

• Como bem dizia Anchieta…

• Comer, beber, emagrecer

• Do lixo para as passarelas

• Para matar a sede de saúde

• Varre, varre a dengue, vassourinha…

• Microexército para macrobatalhas

• Deu praga na praga

• Para rejuvenescer, use o escorrega-macaco

• Cascavel na veia ou em cápsulas?

• Madeiras que cantam e encantam

• Falta ar? Recorra ao peixe venenoso!

• Comece bem, com a pata-de-vaca certa!

• Um toque de sabor e textura aos congelados

• Overdose agrícola tem cura!

• Uma torneirinha para o bem-estar

• Para o alto e além!

• Vírus por vírus, o nacional é melhor

• A criativa defesa das pererecas

• Como tirar plástico da mandioca

• O inibidor de serpentes

• Relaxe! Deixe o herpes com a marcela

• Contra gripes e resfriados, use o guarda-sol

• Para lavar a égua… Ops: a água!

• Regeneração óssea sai da zona do vinagre

• Lugar de caju é na escova de dentes

• E carrapato lá tem serventia?

• A aposta no picão-preto

• As vantagens de ser homem-aranha

• Vai antigraxa aí, doutor?

• Um segredinho para adiar a morte

• Alívio é com a cabeludinha

• Esponjas para lavar o Mal do Século

• Medidores bat-precisos e bat-econômicos

• Vazou petróleo no mar? Camarão nele!

• Buriti: das veredas para os semáforos

• Luzinha ‘dedo-duro’

• Caranguejeiras x super bactérias

PATROCÍNIO: