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Como tirar plástico da mandioca Liana John - 04/11/2010 às 19:03
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Os plásticos estão por toda parte. No mercado de consumo, asseguram a conservação de alimentos; ajudam no transporte de mercadorias; embalam de cosméticos a geladeiras; constituem as caixas de computadores, peças de automóveis e uma vasta gama de utensílios domésticos.
Após o consumo, no entanto, estar por toda parte torna-se um grave problema: os plásticos superlotam aterros sanitários e lixões; sujam as cidades e o campo; invadem as praias, os rios e o oceano; causam impactos sobre a fauna e não se degradam por muitos anos.
A reciclagem de plásticos existe, mas é limitada, pois custa caro separar e limpar o plástico usado, e o valor dos bens produzidos com o plástico reciclado é baixo.
Assim, obter um bioplástico biodegradável e compostável parecia uma boa alternativa para abastecer este mercado repleto de demandas e ainda reduzir os impactos pós-consumo. Foi o que pensou o engenheiro de materiais João Carlos de Godoy Moreira, quando surgiu a oportunidade de vender sua empresa de plásticos de alta performance a uma multinacional do setor, em 2004.
Com dinheiro no bolso e a intenção de investir em bioplásticos, João Carlos voltou à pesquisa depois de 20 anos de formado. E trabalhou com outros 15 pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), campus São Carlos, para desenvolver uma tecnologia de processamento de biopolímeros de amido. Ou, trocando em miúdos, um jeito de tirar plástico da mandioca (Manihot esculenta), uma das poucas plantas amazônicas domesticadas pelos índios hoje amplamente difundida em outros continentes.
A pesquisa gerou duas patentes para a USP São Carlos e o engenheiro de materiais obteve a licença de fabricação, abrindo uma nova empresa a Biomater a ser inaugurada neste mês de novembro, com as primeiras entregas previstas para janeiro de 2011.
Além de depender de fonte não renovável, a fabricação de plástico convencional emite de 3 a 5 quilos de carbono por quilo de produto. Já um quilo do nosso bioplástico faz o oposto, ou seja, vem de fonte renovável e retira da atmosfera de 3 a 5 kg de carbono, comenta João Carlos.
O amido de mandioca usado na fabricação de bioplásticos é o mesmo das receitas de pão-de-queijo e polvilho. Esse amido já é amplamente utilizado em indústrias cosméticas, farmacêuticas e como cola e branqueador de papel, continua o engenheiro. Ele já é um polímero natural que esticamos para transformar numa macromolécula, submetendo a alterações de pressão e temperatura. Uma vez convertido em amido termoplástico, o material é cortado em pelets, ou seja, pequenas bolinhas prontas para serem moldadas como sacolas, utensílios, embalagens, etc.
A exemplo da mandioca, outras plantas ricas em amido batata, milho e cana-de-açúcar podem ser utilizadas. E João Carlos também considera promissor o babaçu (Orbignya phalerata), outra espécie brasileira por ele testada. Em média, o coco de babaçu tem 17% de amido, atualmente desperdiçado no processo manual de quebra para retirada da amêndoa para a fabricação de óleo.
O óleo de babaçu é muito usado na indústria cosmética e as cascas são aproveitadas como carvão em fornos de ferro-gusa, mas o amido se perde, diz. Se recuperássemos o amido teríamos 100% de aproveitamento do coco e agregaríamos valor a um subproduto atualmente desprezado, gerando mais renda para as comunidades de quebradeiras do Maranhão. Considero este um case muito interessante. Seria necessário apenas transformar as comunidades de quebradeiras em micro agroindústrias, com a quebra mecanizada. Haveria, inclusive, um ganho de saúde para os trabalhadores, cuja cadeia produtiva ainda é muito artesanal.
O bioplástico de babaçu teria as mesmas qualidades dos biopolímeros de mandioca. Ambos têm estrutura compatível com a biodigestão feita por bactérias e fungos e poderiam ser destinado à compostagem juntamente com resíduos orgânicos.
Em outras palavras, o bioplástico mudaria para o cesto marrom, na coleta seletiva, e poderia ser transformado de novo em solo para dar origem a novas plantações de mandioca ou babaçu, que se transformariam em mais bioplástico… E por aí se forma um círculo virtuoso para combater o excesso de plástico convencional espalhado por toda parte após o consumo.
FOTO: Biomater (De cima para baixo, pelets de cana, milho, batata e mandioca)
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05/11/2010 às 11:05 Anonymous - diz:
Rogerio R. Ruschel – diz:Liana, muito bom – mas fica uma pergunta: qual a relação econômica do negócio, de produção e vendas entre os plásticos convencionais e o de mandioca?
05/11/2010 às 11:09 Anonymous - diz:
Fabio Colombini – diz:Liana, ótimas informações – parece que temos na Terra todos os problemas, e ao mesmo tempo todas as soluções.
05/11/2010 às 11:43 Anonymous - diz:
Isabel Pellizzer – diz:Realmente é dificil se desvencilhar totalmente do uso diário do plástico – principalmente as sacolinhas. Então, essa troca do plástico convencional pelo bioplástico é muito importante e necessária. Parabéns aos pesquisadores!
05/11/2010 às 21:35 Anonymous - diz:
Isabel Peixoto – diz:Preciso de informações sobre Seguro Ambiental.Grata,Isabel
07/11/2010 às 18:22 Anonymous - diz:
idpol – diz:Certa vez a Editora Saber Eletrônica nos brindou com um 1º de abril:Tansportar água por ondas eletromagnéticas e atingirmos áreas secas” Bem… O que impede da viabilização em massa dos bios da vida? IGNORÃNCIA: desconheço um (1) que tenha emplacado.Parabéns pela “descoberta” – pesquisa
09/11/2010 às 22:17 Anonymous - diz:
Eduvaldo Sichieri – diz:Como professor universitário que sou, fico muito feliz essas pesquisas (assim como tantas outras) para a produção de plásticos biodegradáveis. É claro que muitas questões ainda devem ser respondidas (como se a degradação é total, ou se não estão utilizando plastificantes, etc…). Mas, o que mais me incomoda é como os governos ficam alheios a isso tudo. No Brasil, como faremos agora com essa estória do pré-sal? Vamos continuar ignorando essas pesquisas e continuar poluindo?
04/12/2010 às 21:31 Anonymous - diz:
Lia Inês Bittelbrun – diz:Tudo de bom! O planeta agradece! A idéia deveria ser abraçada por todos.
02/03/2011 às 23:36 Anonymous - diz:
Wener Marq – diz:A idéia é excelente. Vejo que o principal problema a ser enfrentado é a ignorância
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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