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Como bem dizia Anchieta… Liana John - 24/03/2011 às 09:49

 

A primeira referência às abelhas brasileiras feita pelo Padre José de Anchieta, em 1560, na Carta de São Vicente, já dava conta das propriedades medicinais de seu mel: “Encontram-se quase vinte espécies diversas de abelhas, das quais umas fabricam o mel nos troncos das árvores, outras em cortiços construídos entre os ramos,… Usamos do mel para curar as feridas, que saram facilmente pela proteção divina”.

Difícil saber de que espécies ele falava, mas certamente eram da tribo Meliponini (na qual se classificam todas as abelhas nativas sem ferrão), pois por aqui, naquela época, ainda não existiam abelhas européias e muito menos africanizadas.

Com o tempo, à ação cicatrizante destacada por Anchieta, somou-se uma longa lista de vantagens nutritivas e medicinais, repetida e encorpada por apicultores e vendedores, sobretudo quando a Meliponini em questão é a jataí (Tetragonisca angustula), uma abelhinha minúscula (5 mm), porém de grande fama. Agora cabe à pesquisa separar o joio do trigo, testando as diversas ações propagandeadas e propondo formas de aplicação e dosagens eficazes, quando for o caso.

Pelo menos uma tarefa dessas foi cumprida pelos estudantes Mariana de Alcântara Pereira Pimentel e Adônis Moreira, ambos da Medicina Veterinária do Centro Universitário Serra dos Órgãos (Unifeso), de Teresópolis (RJ). Sob orientação da médica veterinária e mestre em Patologia Clínica, Denise de Mello Bobany, ambos fizeram trabalhos de conclusão de curso sobre a ação antimicrobiana do mel de jataí em otites externas de animais domésticos. Com resultados muito positivos!

O teste de Mariana foi in vitro: ela colheu amostras da secreção do conduto auditivo de 16 cachorros com sinais de dor de ouvido: prurido, coceira, agitação da cabeça, irritação, vermelhidão e sensibilidade ao toque. Com o material colhido, “semeou” alguns tubos de ensaio próprios para culturas de patógenos. Desenvolveram-se diversas bactérias e leveduras, com predominância de Staphylococcus sp., Bacillus sp. e Malassezia pachydermatis, todos micro-organismos associados a otites externas, (quando em abundância).

Parte das culturas então foi tratada com gotas do mel de jataí, retirado diretamente da colméia por meio de seringas esterilizadas. E parte foi tratada com os antibióticos orais de mercado comumente usados para casos de otites. Os resultados obtidos com o mel de jataí foram bem próximos de ampicilina e ciprofloxacina; superiores aos de cefalexina, penicilina e enrofloxacina; e inferiores apenas aos de ofloxacina.

O teste de Adônis foi in vivo, usando o mel de jataí como remédio, diretamente no ouvido dos animais. Foram selecionados 4 cães e 2 gatos com sinais de otite externa. O diagnóstico se confirmou com a cultura dos micro-organismos, sendo Staphylococcus sp. e Malassezia pachydermatis os mais abundantes. Os animais receberam, então, 3 gotas diárias de mel de jataí, sem limpeza prévia do conduto auditivo ou qualquer outro medicamento. Em alguns dias estavam todos livres de infecção!

Ainda resta comprovar muitos ‘milagres’ atribuídos à abelhinha jataí. Mas nos casos de otites externas de cães e gatos – que representam de 8 a 15% das consultas veterinárias no Brasil – seu mel já provou ser uma “proteção divina”, como diria Anchieta!

 

Foto: Liana John

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Comentários

24/03/2011 às 11:19 Anonymous - diz:

Richard Sotero – diz:Anchieta foi o pai e patrono da biodiversidade brasileira, da antropologia, do teatro, do ensino público e gratuito e também da farmácia. Criou uma botiga. E tem um relato impressionante de um índio, atacado por uma ariranha, e que ficou curado ao ter suas feridas bem lavadas e untadas com mel de nossas abelhas nativas. Belíssimo post! Parabéns!

24/03/2011 às 15:30 Anonymous - diz:

MARIANA VIEIRA SENNA – diz:Belíssima matéria! Mel já é uma delícia (amo! amo! amo doce!). Sabendo disso agora então… aff! Viva o mel!

31/05/2011 às 12:13 Anonymous - diz:

Now I feel stpuid. That’s cleared it up for me

01/06/2011 às 06:29 Anonymous - diz:

92Rvah owenvqiyelbp

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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