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Comer, beber, emagrecer Liana John - 17/03/2011 às 15:55

Uma planta capaz de melhorar a digestão, aliviar os efeitos colaterais do excesso de bebidas alcoólicas, ajudar a controlar o diabetes e ainda auxiliar no emagrecimento tem todo direito de ser amarga. Afinal, como diz o ditado, “na vida, só merece o doce quem já provou do amargo”.

 
A planta da qual tratamos é uma touceira baixa, de dois a três palmos de altura, com folhas compridas muito características, compostas de três partes, parecendo três aletas de um cacto sem “recheio”. É uma espécie cheia de nomes. Os cientistas a chamam de Baccharis trimera. Popularmente, conforme a região, pode ser conhecida como tiririca-de-bêbado, tiririca-de-balaio, vassoura, cacaia-amarga, cacália-amargosa, bacanta, iguape, três-espigas. Mas o nome mais conhecido mesmo é carqueja, santo remédio para males do estômago e do fígado, velho conhecido de avós, bisavós e tataravós, indígenas, caboclas ou imigrantes europeias.

Na natureza, a carqueja nasce em regiões frias com solos pobres em nutrientes, do alto da Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, até as baixadas do Rio Grande do Sul, passando pelas encostas do Vale do Ribeira, em São Paulo. E também se espalha por outros países sulamericanos.

O fato de a carqueja crescer fácil até na beira de estradas, porém, gerou um extrativismo predatório, ainda predominante no mercado nacional. Por isso, ao lado dos estudos sobre os componentes químicos da planta – para identificação dos princípios ativos e de sua eventual toxicidade – vale destacar a pesquisa desenvolvida no Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas da Universidade Estadual de Campinas (CPQBA/Unicamp) com o objetivo de domesticar a espécie.

A partir de plantas nativas originárias de Andradas (MG), Joquim Egído (SP) e do Paraná, a pesquisa foi desenvolvida nos últimos 15 anos pelo engenheiro agrônomo Ílio Montanari Júnior. E culminou com o lançamento de um cultivar de carqueja, próprio para plantações comerciais, capaz de produzir bastante biomassa e também com boa capacidade de rebrota, baixo risco de acamamento e florescimento uniforme. Essas vantagens, juntas, garantem boa produtividade aos plantios comerciais e oferecem uma oportunidade de substituição lucrativa da depredação extrativista. Nos campos experimentais do CPQBA, por exemplo, a produtividade chega a 6.400 kg de plantas secas por hectare/ano!

“Detectamos uma demanda grande no mercado, até então praticamente suprida pela coleta predatória”, conta o pesquisador. “Até hoje ainda é comum ver caminhões parando nas áreas de ocorrência de carqueja – no Vale do Ribeira, por exemplo – para cortar tudo o que for encontrado e levar embora”. Com o cultivar desenvolvido, a opção de plantar carqueja alivia essa pressão sobre as áreas nativas e ainda favorece o controle de qualidade, sem plantas de outras espécies no meio e sem o risco de se comprar gato por lebre.

 
“Semeada em viveiros, a muda cresce rápido. Depois, plantada no campo, no início da primavera, no espaçamento de um por um metro, ela logo fecha, produzindo touceiras de até um metro de altura”, detalha Montanari Jr. A primeira colheita é feita em oito meses, um pouco antes do florescimento, quando os compostos químicos estão no auge.

“Na maioria das vezes, as plantas medicinais das quais se usa a parte aérea (folhas) devem ser colhidas quando lançam os primeiros botões, antes desses botões abrirem”, explica Montanari Jr. “O fato de termos uniformizado o florescimento da carqueja potencializa a produção para fins medicinais”.

Apesar de não ser uma árvore, a carqueja é uma planta perene. Depois do primeiro corte, as folhas voltam a crescer sem necessidade de semear novamente. E então passam a ser colhidas duas vezes por ano. O cultivar ainda é de polinização aberta e fácil reprodução, ou seja, se quiser, o produtor pode obter suas próprias sementes para aumentar ou renovar sua área de plantio.

“Ainda não sabemos – e ninguém sabe – quais as substâncias ou sequer quais os grupos de substâncias responsáveis pela ação da carqueja contra problemas de estômago, de fígado, etc. Assim, ainda usamos as folhas inteiras, na forma de chá, tintura, xarope ou como fitoterápico”, prossegue o pesquisador. Mais uma razão para tentar obter a planta de forma sustentável.

Aos primeiros produtores interessados, o CPQBA fornece as sementes de seu cultivar, enquanto aguarda a publicação de normas para a comercialização de larga escala, a ser feita provavelmente por meio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Talvez demore um pouco para ter um produto de tão boa qualidade no mercado, mas vale esperar. Como diz outro provérbio: “a paciência é uma árvore de raiz amarga, mas frutos doces”…

Foto: Liana John (Ílio Montanari Jr e seu cultivar de carqueja)

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Comentários

18/03/2011 às 14:49 Anonymous - diz:

MARIANA VIEIRA SENNA – diz:Sempre detestei carqueja, ô coisinha amarga!!! Mas como “o que arde cura, o que aperta segura”, sempre ouvi das minhas avó e bisavó sobre seus benefícios e aí tinha que tomar. Enfim, viva a carqueja, antiga mas poderosa!

18/03/2011 às 15:07 Anonymous - diz:

Marcele Bastos – diz:Olá Liana, adorei esse post! Minha família, principalmente minha avó e uma índia criada por ela, usavam a carqueja para tudo, até para machucados, quando ganhávamos roxos pelo corpo ao cair de uma jabuticabeira. Voltei no tempo quando li e seria muito bom que os pesquisadores desenvolvessem um produto medicinal com a planta! Abs

22/03/2011 às 18:11 Anonymous - diz:

Daniela Amarante Jank – diz:Ilio, bem que o Kusca disse que eu iria adorar a matéria! Adoreeeiiii!Parabéns pelo seu trabalho!Tá lindo na foto!Mande uma mudinha se puder!Bjs,Dani

23/10/2011 às 16:49 Venúbia Palácio - diz:

Adorei as informações que não são fáceis de encontrar nos sites que
pesquisei. As informações são importantes e condensadas em pouco espaço tornando a absorção de informações rápida.

Vc tem como dar dicas em meu e-mail sobre como usar alguns chás ou produtos fitoterápicos para TPM ( muito nervoso, ansiedade , vontade exagerada de doces nessa fase e muito retenção de líquidos nesta fase?) Tenho 47 anos, acho q vale a informação por conta dos hormônios, e tenho muita dor no corpo membros superiores e pescoço.
Agradeço contato
Venúbia.
Venubianunes@globo.com

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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