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Comece bem, com a pata-de-vaca certa! Liana John - 06/01/2011 às 11:47

 

Tem gente que passa o Ano Novo pulando numa perna só para garantir a entrada com o pé direito, tido como sinal de sorte. O pai da aviação, Alberto de Santos Dumont, não subia uma escada sem começar com o pé direito. Chegou a desenhar degraus impossíveis de galgar senão iniciando com o pé direito. Uma escada com tais degraus ainda está em sua casa de Petrópolis (RJ) – hoje um museu – à disposição de quem quiser tirar a prova.

Na hora de aproveitar os benefícios da biodiversidade brasileira, também é preciso começar bem, escolhendo as espécies certas. Não por uma questão de sorte ou superstição, mas porque plantas muito parecidas – frequentemente conhecidas pelo mesmo nome comum – podem ter efeitos muito diferentes. Ou não produzir efeito algum!

Assim é com as patas-de-vaca, plantas do gênero Bahuinia, assim chamadas devido ao formato das folhas, semelhante ao casco partido dos bovinos. As várias espécies de patas-de-vaca são popularmente utilizadas contra diabetes e por suas propriedades antivirais, antimicrobianas, anti-inflamatórias e antioxidantes.

Um grupo de pesquisadores da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), de Santa Catarina, isolou diversos compostos e substâncias presentes nas patas-de-vaca, e, de fato, identificou o flavonóide kaempferitrina como hipoglicemiante, ou seja, com efeito no tratamento de diabetes. Agora, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Santa Catarina (Fapesc), eles avaliam se há ou não interação do composto natural com a glibenclamida (o medicamento mais usado contra diabetes mellitus tipo 2) e se a interação é positiva no controle da doença.

Enquanto não saem os resultados, é bom saber que este flavonóide antidiabético não existe nas patas-de-vaca ornamentais, árvores muito comuns no paisagismo urbano, geralmente da espécie Bauhinia variegata, cujas flores são rosadas e folhas, arredondadas (foto). A substância está presente apenas em Bauhinia forficata, “uma árvore de 6 a 9 metros de altura, com folhas de 8 a 10 cm de comprimento, possuindo lóbulos agudos e a presença de espinhos, duas características que a diferenciam das demais espécies. As flores são brancas e a espécie ocorre no Brasil meridional, Rio de Janeiro a Minas Gerais, com uma variedade em São Paulo”, esclarece a farmacêutica da Univali, Christiane Meyre da Silva Bittencourt, mestre e doutora em química orgânica.

Segundo ela, o acesso à pata-de-vaca certa é difícil e um bom número de chás comercializados com este nome não contém o composto eficaz contra o diabetes. Christiane cita uma avaliação feita por colegas, sob coordenação de I. C. Engel, de 6 marcas comerciais e 3 patas-de-vaca ornamentais. Só duas das amostras comerciais continham material compatível com a planta certa e todas continham mais de 2% de materiais vegetais estranhos. E nenhuma das amostras ornamentais continha kaempferitrina.

Quanto às propriedades antivirais, antimicrobianas, anti-inflamatórias e antioxidantes, estas parecem estar presentes em uma terceira espécie de pata-de-vaca – Bahuinia microstachya – mais parecida com um cipó, do tipo escada de jabuti, amplamente distribuída na região sul do Brasil e no Uruguai, Argentina e Paraguai. Estudos preliminares identificaram nas cascas e nas folhas, compostos com tais efeitos. Mas a propriedade mais promissora, na opinião de Christiane, não faz parte do repertório popular: é a analgésica, identificada no extrato bruto das folhas de B. microstachya, associada “aos compostos isolados quercitrina e miricitrina, contribuindo para a sua indicação, ao menos em parte, em processos dolorosos”.

Como se vê, tomando-se o devido cuidado, diversos medicamentos eficazes podem ser extraídos das plantas do gênero Bahuinia nos próximos anos, incluindo algumas surpresas. A questão é não apostar no escuro, correndo o risco de consumir a pata-de-vaca errada. Melhor começar com o pé direito e confiar na chancela da pesquisa, certa como a escada de Santos Dumont.

 

FOTO: Liana John (Bahuinia variegata)

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Comentários

06/01/2011 às 14:41 Anonymous - diz:

Rudimar Cipriani – diz:Oi Liana,Parabéns por esta interessantíssima matéria iniciando com o pé direito mais um ano. E por falar em Novo ano, desejo-lhe que a felicidade e sucesso estejam presentes em todos os momentos de 2011.Abraços

06/01/2011 às 17:38 Anonymous - diz:

Richard Sotero – diz:Excelente matéria. Esse tipo de pesquisa deveria ser realizado com todas essas plantas ditas medicinais e de usoi popular. Até opara as pessoas saberem o que realmente funciona ou tem chance de funcionar. Viva a santa ciência e a consciencia!

06/01/2011 às 23:36 Anonymous - diz:

Isabel Pellizzer – diz:Oi Liana, como sempre fornecendo informações importantes e esclarecedoras. Parabéns pela matéria! Único problema da pata-de-vaca é que ela é muito fechada, rs! Feliz 2011 e sucesso, sempre!!! Bjos

08/01/2011 às 04:29 Anonymous - diz:

Maria Dirlena de Marchi Moraes – diz:Liana sempre ouvi falar das indicações da pata de vaca.Espero que chegue ao mercado produto realmente confiável.

09/01/2011 às 15:19 Anonymous - diz:

Fabrício Silva – diz:Fabrício Silva – diz:“Assim é com as patas-de-vaca, plantas do gênero Bahuinia, assim chamadas devido ao formato das folhas, semelhante ao casco partido dos bovinos.”Não é “bahuinia”, mas sim Bauhinia!Att.,Fabrício Silva

10/01/2011 às 11:32 Anonymous - diz:

Mariana Senna – diz:Parabéns pela matéria e pela esclarecedora informação! Então, vamos!!! Comecemos com o pé direito!!!

24/12/2011 às 14:57 ana macharet - diz:

estou tomando o chá da pata de vaca, eu custei a encontrar a folha certa.
a que estou usando ela tem espinhos e a folha é arredondada em vez de bicuda, ela tem 9 tirinhas na folha como se fosse um caulezinho.
quero saber se realmente é essa folha porque ainda não vi a flor da arvoré que estou pegando.
começei a tomar tem 15 dias e estou me sentindo mais animada…

espero resposta, um abralo e um feliz natal

ana macharet

13/01/2012 às 21:25 Celso Polastro - diz:

Amigos(as)

Craças a voces descobri que estou tomando chá de bahuinia
ornamental
Voces fariam a gentileza de me indicar um viveiro de mudas
em SP aonde eu possa adiquirir a bauhinia correta

Obrigado

14/01/2012 às 14:20 Liana John - diz:

Oi Celso Pessoalmente considero a Dierberger um dos viveiros mais confiáveis no estado de São Paulo, pois lá se tem conhecimento de plantas pelo nome científico. A Dierberger fica na rodovia Limeira-Piracicaba, ainda no perímetro urbano de Limeira. O telefone é (19) 3451 1221 e o site deles é http://www.fazendacitra.com.br. Boa sorte!

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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