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Com mulungu, mamulengo é moleza! Liana John - 26/01/2012 às 15:20
O teatro de fantoches da Zona da Mata nordestina – conhecido por lá como mamulengo – persiste graças às oficinas de velhos mestres como Zé Lopes, de Glória do Goitá (PE). Do alto de seus 50 anos de mamulenguices, ele ensina a jovens artesãos os segredos dos espetáculos e da arte de esculpir os bonecos.
Os novos mamulengueiros não dependem, porém, só da capacidade de aprender e improvisar. Dependem também da madeira certa para suas criações, que reúna qualidades um tanto contraditórias, como ser macia e consistente; ser fácil para trabalhar, mas difícil de estragar ou de pegar cupim.
Pois essa madeira é a de um mulungu, nome comum atribuído a mais de 50 espécies nativas do gênero Erythrina, cuja distribuição original se estendia entre Minas Gerais/Rio de Janeiro ao Ceará. Por natureza, essas árvores já têm uma quedinha para a vida artística: a exemplo dos ipês, os mulungus perdem totalmente as folhas antes da floração e se exibem como grandes buquês, em tons entre o alaranjado e o vermelho intenso, conforme a espécie. É uma apresentação curta, de umas duas semanas, em média, mas de destaque na mata.
Para os mamulengos, a espécie de mulungu utilizada é Erythrina verna. “É uma madeira fofa, mole, que pode ser trabalhada verde. Tem nó, mas mesmo o nó fica mole quando o boneco é esculpido na madeira verde”, explica Edjane Maria Ferreira, de 27 anos, mamulengueira há 9 anos e funcionária da Secretaria Municipal de Cultura de Glória do Goitá. Ela aprendeu com mestre Zé Lopes e hoje faz seus próprios mamulengos, além de se apresenta quinzenalmente, sempre nos finais de semana. Ela também é presidente da Associação Cultural de Mamulengueiros e Artesãos da cidade.
“A gente esculpe o mamulengo na madeira verde, depois deixa secar, cobre com massa corrida, látex e aí pinta”, diz. Segundo ela, uma árvore de mulungu dá para mil bonecos e, no mínimo, um mês de trabalho dos 14 artesãos da associação. “Mas isso é só quando a gente tem encomenda grande, em geral, dá para vários meses”. Como a atividade depende apenas dessa espécie de mulungu, os artesãos se preocupam com a extração racional da madeira, que não é empregada em construções, como cabo de ferramentas ou móveis justamente por ser mole demais.
“A gente compra na zona rural. Em geral, os donos de sítios plantam mulungu para cerca viva ou para dar sombra ao gado, mas quando a árvore cresce demais, eles tiram e queimam. Então, quando sabemos que eles vão tirar, nós compramos a árvore e vamos lá, na zona rural, buscar. Usamos o tronco, os galhos, tudo, um pouco por vez”.
A associação ainda promove o plantio do mulungu e distribui mudas para os interessados. No ano passado, 140 mudas foram plantadas em um terreno urbano, cedido pela prefeitura de Glória do Goitá. “O mulungu também é medicinal”, acrescenta Edjane. “A entrecasca serve como calmante”.
A sabedoria popular começa a encontrar confirmação em pesquisas, como a comparação realizada entre o mesmo mulungu do mamulengo e o remédio comercial Clonazepam, em testes in vivo (com camundongos). Conforme artigo publicado pelos pesquisadores Wilson Felipe Pereira e Marcelo Quirino de Moura Machado, ambos da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o mulungu oferece segurança terapêutica para uso como ansiolítico (calmante) “para diversos transtornos mentais que cursam com ansiedade”. Com a vantagem de produzir menos efeitos colaterais do que o medicamento comercial.
Em alguns casos, talvez a terapia se complete com um bom espetáculo de mamulengo. Afinal, como dizem os ditados: “rir é o melhor remédio” e “quem ri por último, ri melhor”.
Fotos: Liana John (mamulengos de Glória do Goitá e mulungu florido)
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27/01/2012 às 17:48 Isabel Pellzzer - diz:
A biodiversidade também presente na arte e na alegria de viver! Abraço!
27/01/2012 às 18:00 Luís Gonzaga - diz:
Além de ser lindo , e de tudo que você escreveu, o mulungu ainda atrai várias espécies de aves como beija-flores, saíras e periquitos!!
27/01/2012 às 18:15 Liana John - diz:
Isso mesmo! E, em Fernando de Noronha, os lagartinhos mabuia vão até as flores atrás do néctar, como nos informam o zoólogo Ivan Sazima e a botânica Malies Sazima!
Sem contar no uso das sementes vermelhas de mulungu para artesanato. Isso é que é árvore de 1001 utilidades…
27/01/2012 às 18:33 Kristina Michahelles - diz:
Liana, adorei!
27/01/2012 às 19:40 lia ines bittelbrun - diz:
Que interessante! e “Rir é o melhor remédio”
30/01/2012 às 15:48 Izabel Cristina da Silva - diz:
Eu conheço, simplesmente é fantástico!!! Além de colaborar com a ocupação e renda,contribuir para a educação interdisciplinar e qualidade de vida das pessoas.
30/01/2012 às 21:04 Teca Rios - diz:
Parabéns pela iniciativa da Associação de Mamulengueiros do Goitá.
A árvore é linda mesmo eu conheço muito bem.
Temos que preservar mesmo o que é belo!
Acho que cada um tem que fazer a sua parte, o meio ambiente agradece! Esta é mesmo de 1001 utilidades.
Parabéns viu Edjane Maria Ferreira, ainda bem que ainda existem pessoas como vc!!!
Abraços
Teca Rios (Grumaluc Teatro de bonecos)
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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