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Com mandacaru não tem água turva Liana John - 19/01/2012 às 14:11

Um dos cactos brasileiros de maior porte, com ampla distribuição tanto no semi-árido como em cerrados e florestas secas, o mandacaru (Cereus jamacaru) é usado como referência de caminho por sertanejos e mateiros. E também indica a proximidade da esperada estação chuvosa, como bem lembra a voz do velho Luiz Gonzaga, no verso “mandacaru quando flora lá na serra, é sinal que a chuva chega no sertão/toda menina que enjoa da boneca é sinal de que o amor já chegou ao coração”.

 
Pois agora, no Paraná, mandacaru também abre um novo caminho para o tratamento de água e já dá sinais de redução da poluição ao final do processo. A pesquisa é coordenada pelo químico e doutor em Química Analítica, Ricardo Fiori Zara, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Junto com alunos de Iniciação Científica, há um ano ele estuda a viabilidade de substituir os produtos comerciais à base de alumínio por polímeros naturais extraídos do mandacaru na coagulação/floculaçãopara decantação de sedimentos, que é a primeira fase do tratamento de água para abastecimento.

 
“Em 2011, testamos várias maneiras de extrair o polímero do mandacaru e comparamos a eficiência na floculação dos diversos extratos com os químicos comerciais, como o sulfato de alumínio, usado em 95% da água tratada no Brasil”, conta Zara. A parte do cacto utilizada foi o cerne do caule, em alguns casos, triturado e convertido em solução aquosa e, em outros experimentos, seco e moído até virar pó.

 
“O melhor resultado que obtivemos em laboratório foi com a extração em solução salina”, observa o pesquisador, ressaltando que a substituição do sulfato de alumínio não foi total, mas é superior a 50%. Ou seja, “o uso do mandacaru na floculação reduz pela metade a quantidade do produto químico, lembrando que o alumínio é um poluente que permanece no lodo final, enquanto o mandacaru é biodegradável”.

 
Vale acrescentar que boa parte das estações de tratamento de água (ETAs) brasileiras não dispõe o lodo final em aterros sanitários adequados, mas devolve o resíduo aos próprios rios e reservatórios de onde a água é captada. O alumínio persiste nos sedimentosdo fundo e pode voltar à coluna d’água sempre que há algum tipo de mobilização (enchentes, por exemplo, ou dragagem).

 
Outra vantagem do mandacaru sobre o sulfato de alumínio desencadear a floculação de 30 a 40% mais rápido. “E os flocos são diferentes: enquanto o sulfato de alumínio transforma as partículas em suspensão em flocos pequenos e pouco densos – portanto mais leves – o mandacaru agrega os flocos, deixando-os mais pesados”, prossegue o pesquisador. “Embora a qualidade da água resultante seja mais ou menos equivalente nos dois casos, o tipo de floculação do mandacaru facilita a separação (decantação): os sedimentos vão para o fundo e a água mais limpa permanece em cima, pronta para ser transferida para o tanque seguinte”.

 
Ainda faltam mais testes com outras combinações de mandacaru e sulfato de alumínio para chegar a uma dosagem padrão e para verificar se não há derivados tóxicos do cacto. As perspectivas são boas, pois, conforme a literatura científica consultada, não há registro de toxicidade pra o caule do mandacaru. Popularmente, inclusive, o cacto é usado como alimento para o gado em secas mais prolongadas e o caule também é consumido como medicamento popular, para males dos rins. De qualquer forma, os testes serão realizados.

 
“Neste ano de 2012, a intenção é continuar com a pesquisa de modos de aplicação e em maior escala, nas condições reais de estações de tratamento”, explica Ricardo Zara. “Além de realizar testes complementares como os de toxicidade do polímero de mandacaru, para os quais contaremos com a colaboração de colegas aqui da universidade”.

 
Até aqui, ele e os alunos não contaram com nenhum financiamento de instituições acadêmicas, apenas com materiais fornecidos pela UTFPR e pela ETA da cidade de Toledo (PR), onde a universidade está localizada. De qualquer modo, “trata-se de uma pesquisa de baixo investimento”, diz.
Baixo investimento e alto interesse, podemos acrescentar. Qualquer redução na quantidade de poluentes lançada em nossa água de beber é mais que bem vinda.Todas as empresas de água deviam acompanhar esta pesquisa!

 
Foto: Liana John (mandacaru em flor em Ribeirão Preto, SP)

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Comentários

19/01/2012 às 17:21 Suzana Sattamini - diz:

Bacana demais, vou postar no meu blog , com os créditos , é claro!!!!
Parabéns pela reportagem.Em tempos de águas poluídas, ter uma solução maravilhosa destas é bom demais!!!Redução de 50% do sulfato de alumínio na etapa de floculação!!!! Maravilha!!!!

19/01/2012 às 19:13 Izabel Cristina da Silva - diz:

Liana,como sempre vc escreve matérias super interessante, para que os brasileiros de norte a sul descubra,valorize e continue pesquizando sobre as nossas riquezas.
Parabéns a vc e continue brilhante desvendando esse Brasil.

20/01/2012 às 18:53 Marcos Terra - diz:

Excelente matéria.
E que bela perspectiva para a agricultura cultivar/explorar mandacarus desde que o IBAMA não considere isso um crime…
E que bela perspectiva para a qualidade da água e para a saúde pública. Parabéns!

20/01/2012 às 22:28 Lia Inês Bittelbrun - diz:

Que ótima notícia! a saúde agradece!

21/01/2012 às 12:14 Edlaine Garcia - diz:

É incrível, Liana, ver que as respostas para a sustentabilidade estão na própria natureza. Sabiamente alguém as estuda e com o olhar cuidadoso alguém divulga para todos nós acreditarmos que o futuro pode ser diferente!! PARABÉNS também pela sensibilidade de recorrer ao grande Luiz Gonzaga!! O mandacaru do velho Gonzagão é poesia musical, direciona mateiros e mostra que veio pra muito mais….

23/01/2012 às 14:33 Moacyr Castro - diz:

Meados dos anos 70s, nós (jornalistas do Estadão) ainda no prédio da Major Quedinho, lembro-me de reportagem que fiz na novata Sabesp e seu presidente, Klaus Reinach, indignava-se com o gasto forçado
com o sulfato de alumínio para limpar a água. “E o povo pensa
que limpar o que eles usam é mais barato do que a própria água!”.
Parabéns, como sempre.

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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