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Com baguaçu, a febre vai pro brejo Liana John - 06/10/2011 às 20:25
As substâncias capazes de combater a febre, em geral, agem também contra dores e inflamações. Por isso, ao investigar o baguaçu como antipirético, uma equipe de pesquisa da Universidade Federal do Paraná (UFPR) já aproveitou para testar a atividade analgésica e antinflamatória. E não é que deu certo?
O baguaçu é uma árvore de brejo e mata ciliar, com 10 a 20 metros de altura, tronco reto e copa farta. As flores são grandes, branco-amareladas, polinizadas por besouros. Os frutos são verdes por fora e racham ao amadurecer, expondo bagas vermelhas muito atraentes para as aves.
O nome científico da espécie mudou recentemente de Talauma ovata para Magnolia ovata. Já os nomes comuns variam entre o genérico araticum – usado para diversas espécies – e avaguaçu, bucuibaçu, campina, canela-do-brejo ou pinha-do-brejo. Originalmente, distribuía-se de Goiás até o Rio Grande do Sul, tanto nas terras inundáveis de Cerrado como nas de Mata Atlântica. Mas sua madeira macia, fácil de trabalhar, quase exterminou a espécie em algumas regiões, devido ao corte para uso em caixotaria e devido à ocupação do ambiente onde ela cresce.
“Eu mesma tive dificuldades de encontrar árvores aqui no Paraná para a pesquisa”, conta a química Maria Élida Stefanello, da UFPR. Ela trabalha em parceria com os pesquisadores da UFPR, Aleksander Roberto Zampronio e Cândida Leite Kassuya, além de Marcos José Salvador, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Eles partiram do uso tradicional da casca da árvore contra a febre e fizeram a identificação de diversas substâncias ativas, contando com recursos da própria instituição e, no último ano, de uma parceria com a Fundação Araucária.
“É curioso notar que existem substâncias muito diferentes na casca e nas folhas, por exemplo”, prossegue Élida. E os baguaçus do Cerrado também têm substâncias diversas daqueles da Mata Atlântica, embora a espécie seja a mesma, o que cientificamente é conhecido como quimiotipo.
O extrato da casca de baguaçu foi fracionado e a equipe agora desenvolve estudos paralelos com as várias frações. “Os alcalóides de M. ovata têm potencial para gerar um analgésico bem diferenciado, enquanto as lactonas sesquiterpênicas são mais promissoras como antipiréticas”, explica a pesquisadora. Os compostos das folhas, por outro lado, demonstraram ação antitumoral e também são avaliados separadamente na UFPR.
Para a equipe, as lactonas são as substâncias mais atraentes para um futuro desenvolvimento de produto comercial, embora ainda precisem passar por testes de toxicidade e testes clínicos. Por enquanto apenas alguns ensaios com camundongos e ratos foram realizados. Porém pode-se perceber que sua ação contra a febre é bastante forte mesmo quando usadas pequenas quantidades.
Isso, de certa forma, pode favorecer o uso do produto natural sem promover depredação. Os pedaços de cascas ainda podem ser retirados de galhos, não é preciso explorar apenas o tronco. De qualquer modo, segundo Maria Élida Stefanello, “o baguaçu pode ser plantado, podemos recorrer ao cultivo de células e a novas formas de extração”. A pesquisa sobre os usos da árvore, no seu entender, devem se completar com o trabalho agronômico, de forma a garantir a extração sustentável dos compostos de interesse.
“Esta é uma espécie muito importante para as aves, que consomem seus frutos, e por isso está nas listas de reflorestamentos de matas ciliares, sobretudo na região Sul”, acrescenta a química da UFPR. Os botânicos ainda destacariam o fato de esta ser a única espécie nativa da família das magnólias, ainda encontrada no Brasil. Havia três outras do mesmo gênero, registradas no Século XVIII, mas não se tem mais notícia delas. Restou apenas o baguaçu e, mesmo assim, sob pressão.
Talvez a recomposição das matas ciliares – mais que necessária para a qualidade da água, controle de erosão e numerosos outros motivos – deva começar justamente por esta espécie capaz de mandar a febre, as dores, as inflamações e alguns tumores para o brejo…
Foto: Liana John (fruto de baguaçu ou Magnolia ovata)
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08/10/2011 às 16:19 José Parente - diz:
Parabéns à Profª Elida e equipe pelo brilhante trabalho! Suas pesquisas certamente contribuirão para a saúde e o bem-estar de muitas pessoas em um futuro próximo!
09/10/2011 às 02:28 Maria Élida Alves Stefanello - diz:
Olá Liana
Parabéns pelo artigo. Ficou muito bom.Voce conseguiu colocar as informações de uma maneira atraente para o leitor comum. Precisamos de jornalistas capazes de divulgar as descobertas científicas dessa maneira leve.
cordiais saudações
Maria Élida Alves Stefanello
Departamento de Química
Universidade Federal do Paraná
14/10/2011 às 13:00 Rudimar Cipriani - diz:
Parabéns, Liana por mais este interessantíssimo post. Graças a seus artigos, nós, cada vez mais, vamos acumulando conhecimento sobre nossa biodiversidade, por isso quero aqui expressar minha gratidão. Muito obrigado.
14/10/2011 às 13:32 Silvestre Silva - diz:
Liana, como sempre ótimo artigo .
Silvestre Silva
26/10/2011 às 00:24 JOSÉ LUIZ NUNES DA SILVA - diz:
Estudos com o baguaçu ou pinha do brejo foram divulgados, utilizando-se de chás e extrato das folhas no combate a diabete tipo II com resultados positivos pela Univale – Itajai -SC
Prof.Dr.José Luiz Nunes da Silva
15/11/2011 às 10:07 Ivo Souza Barretto - diz:
Gostaria de saber se esta planta é a mesma conhecida no Nordeste, especialmente na Bahia, pelo nome popular de Araticum e mais ainda, porArtcum.
16/11/2011 às 10:30 Liana John - diz:
Oi Ivo, existem muitas espécies diferentes conhecidas popularmente como araticum ou pinha de alguma coisa. A maioria é do gênero Anonna, mas as propriedades medicinais de cada espécie diferem. Por isso coloco sempre o nome cientifico ao lado do nome vulgar. Recomendo ter muita cautela na hora de utilizar estas plantas pois a adoção da espécie errada não produz o efeito desejado e pode levar à intoxicação involuntária.
17/11/2011 às 22:02 Maria Élida Alves Stefanello - diz:
Prezado Prof. Dr. José Luiz
Gostaria de conhecer esse trabalho desenvolvido na univale com a Talauma ovata. Poderia indicar onde foram publicados? Atenciosamente.
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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