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Cascavel na veia ou em cápsulas? Liana John - 27/01/2011 às 15:51
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Como bem sabem as vítimas de fofocas sobretudo nessa era de maldades digitais instantâneas há veneninhos, venenos e venenaços. A diferença não é só a dose, mas também os componentes destilados, cujos efeitos podem ser temporários ou definitivos, variando entre uma leve toxidez à irremediável malignidade.
Pois assim é também no mundo real, com os venenos das serpentes: eles são diferentes quanto a composição, toxicidade e efeitos. Não é à toa que algumas fofoqueiras são apelidadas de cascavéis, outras de jararacas. O povo tem lá suas sabedorias…
Na França, na década de 1930, o veneno de serpentes naja, bem diluído, era usado em seres humanos como analgésico. Em São Paulo, na mesma época, o médico sanitarista Vital Brazil Mineiro da Campanha se interessou em pesquisar serpentes brasileiras com potencial semelhante. Acabou se decidindo pela cascavel (Caudisona durissa), cujo veneno tem ação neurotóxica, como o das najas e bem diverso das peçonhas da família das jararacas. Vital Brazil chegou a enviar o veneno para médicos no Exterior, que com ele compartilharam os resultados positivos de testes realizados em seus pacientes.
Esse trabalho do primeiro diretor do Instituto Butantan permaneceu na gaveta durante 60 anos até ser retomada pela equipe da doutora em Farmacologia, Yara Cury, coordenadora do Laboratório Especial de Dor e Sinalização do próprio Butantan. Já nos anos 1990, com recursos tecnológicos inexistentes à época de Vital Brazil, ela deu início a um estudo controlado sobre os mecanismos de atuação do veneno de cascavel contra dores crônicas e agudas.
Experimentalmente comprovamos a ação do veneno como um potente analgésico de mecanismo tipo opióide, ou seja, semelhante à morfina. É da mesma classe de drogas, porém um pouco diferente, conta Yara. O passo seguinte foi observar se havia efeitos adversos como tolerância (induz o paciente a tomar doses cada vez maiores) ou dependência (causa crises de abstinência). O veneno é muito estável, age em baixas doses e aparentemente não causa nenhum desses dois efeitos, associados a alguns dos outros opióides, diz.
A pesquisa derivou, então, para a identificação das substâncias componentes do veneno responsáveis pela ação analgésica. E foi isolado um peptídeo que reproduz a ação do veneno bruto, ao qual se deu o nome de crotalfina, numa associação do antigo nome científico da cascavel Crotalus e de morfina. Essa fase do trabalho foi desenvolvida em colaboração com cerca de 10 pesquisadores do Centro de Toxinologia Aplicada (CAT), que envolve diversas universidades e instituições de pesquisa. Os recursos vieram da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Consórcio de Indústrias Farmacêuticas (Coinfar), detentor da respectiva patente, depositada no país em 2004 e no mercado internacional em 2005. Um dos países já licenciados para trabalhar com a crotalfina, desde 2010, é a China.
Enquanto isso, aqui no Brasil, o consórcio de indústrias dá continuidade às diversas fases de testes necessárias para transformar a substância em medicamento. Os testes devem comprovar se há ou não toxicidade ou interação medicamentosa, quais as doses indicadas e quais os efeitos do uso prolongado, por exemplo. Também devem ajudar as indústrias a decidirem se investirão prioritariamente em analgésicos contra dor crônica ou dor aguda.
De seu lado, Yara Cury e sua equipe continuam investigando os mecanismos moleculares da crotalfina, para caracterizar melhor sua ação. Além disso, estudam outros componentes do veneno de cascavel e outras ações potenciais como a regressão de tumores cancerígenos simultânea à eliminação da dor a eles associada.
Como já existe um medicamento para o coração derivado do veneno da jararaca, no dia em que o analgésico de cascavel entrar no mercado defendo a criação de uma campanha de reabilitação da imagem das serpentes. Definitivamente, quem destila o veneno virtual das fofocas não merece apelidos tão nobres!
FOTO: Antonio COR da Costa / Instituto Butantan
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27/01/2011 às 17:01 Anonymous - diz:
Rudmai Cipriani – diz:Mais uma matréria pra lá de interessante. Parabéns, Liana. Nossa bidodiversidade se mostra, através de pesquisas, cada vez mais rica e versátil. Agora, Liana, concordo plenamente contigo: temos que levantar uma campanha em prol das serpentes, para tentar mudar a reputação desses seres injustamente abominados por muitas pessoas.
28/01/2011 às 10:56 Anonymous - diz:
Otavio Marques – diz:Parabens a Liana pela materia. A Iara e demais colegas do Butantan pela pesquisa e apoio a divulgacao da importante descoberta.
28/01/2011 às 15:15 Anonymous - diz:
Mariana Senna – diz:A cada dia me impressiono mais com tão impressionantes descobertas. Isso é fantástico! Parabéns pela interessantíssima matéria!
02/02/2011 às 07:09 Anonymous - diz:
Marcos Terra – diz:Viva a CROTALFINA. Essas pesquisas mostram o universo infinito de possibildiades que a peçonha desses animais pode trazer para melhoria de vida dos seres humanos e até de seus animais domésticos.
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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