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E carrapato lá tem serventia? Liana John - 16/09/2010 às 08:00

Pergunte a qualquer profissional ou aventureiro com a missão de andar pelo mato: tem coisa mais impertinente do que carrapato? Eles vão subindo pelo corpo sem pedir licença; instalam-se nas partes mais indevidas; cravam as mandíbulas na pele para sugar nosso sangue; causam coceiras de enlouquecer e, vez por outra, ainda transmitem doenças graves. Por essas e por outras, os carrapatos costumam estar entre as espécies que mesmo alguns conservacionistas gostariam de ver extintas, ao lado de borrachudos, mosquitos, moscas, baratas e companhia.

Acontece que até as pragas têm função na natureza. Muitos insetos e aracnídeos atormentadores estão na base da cadeia alimentar e, sem eles, não haveria equilíbrio. Mas o carrapato-estrela (Amblyomma cajennense) vai mais além, e começa a interessar em estudos médicos e farmacológicos. Em uma pesquisa da equipe do Instituto Butantan, coordenada por Ana Marisa Chudzinski Tavassi, foram isoladas substâncias anticoagulantes da saliva do bichinho. Como qualquer sugador de sangue, o carrapato precisa impedir a coagulação de modo a manter o fluxo de seu alimentar, portanto produz substâncias anticoagulantes. E algumas dessas substâncias do carrapato-estrela são novas para a Ciência.

“Queríamos primeiro entender quais substâncias existiam nas glândulas salivares deste carrapato e depois eleger anticoagulantes com potencial para uso em terapias”, explica a pesquisadora. “Um inibidor de um dos fatores da coagulação sanguinea (fator X), além de ter um papel na anticoagulação mostrou ser efetivo para induzir morte de células tumorais e induziu regressão de tumores de melanoma, em animais,  sem causar danos às células saudáveis e tampouco causar hemorragias nos animais tratados”. Esta proteína foi selecionada para vários estudos, inclusive para tumores renais e de pâncreas..

O gene responsável pela tal proteína da saliva do carrapato já foi clonado e a proteína, bem como sua aplicação, tem depósito de patente no Brasil e no Exterior. A proteína pode ser reproduzida em laboratório com a ‘colaboração’ de outros microorganismos: algumas leveduras e a bactéria Escherichia coli. Normalmente associada a diarréias e a colites hemorrágicas, E. coli também tem seu lado útil, empregada em biotecnologia quando se quer reproduzir proteínas de interesse para uso humano.

Agora, uma empresa farmacêutica nacional, fabricante de diversos genéricos para uso humano e veterinário – a União Química – está investindo nos testes pré-clínicos. Empresas norteamericanas e escocesas foram contratadas para ajudar a produzir a proteína em quantidade suficiente e para alguns testes, necessários para essa fase do desenvolvimento de um novo medicamento. E outras empresas privadas brasileiras também estarão envolvidas nos testes. Se o zelo da burocracia científica e dos órgãos regulatórios permitir, em breve será possível passar aos testes clínicos e chegar a um medicamento.

Nada disso alivia o incômodo e o risco de ‘pegar’ carrapato-estrela, sobretudo em áreas onde há febre maculosa, uma das doenças por ele transmitida. As pesquisa também não reduzem os problemas de tomar água contaminada com E. coli. Mas o exemplo serve para nos fazer refletir sobre o valor das espécies consideradas praga: no lugar certo, com o olhar apropriado, até elas têm lá sua serventia.

Foto: Daniela Oliveira/Instituto Butantan

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Comentários

16/09/2010 às 15:24 Anonymous - diz:

Isabel Pellizzer – diz:São pesquisadores equilibrando o tansmissor de doenças, o nojento, o que coça e incomoda com sua a sua importância na ciência e suas aplicações. Mas que é nojento, isso não pode-se negar!

17/09/2010 às 10:13 Anonymous - diz:

Thiago Carrapatoso – diz:Só quero deixar claro que eu adoro carrapatos e sei muito bem de sua importância na natureza. :P Obrigado!

17/09/2010 às 14:54 Anonymous - diz:

Rosa Barbosa – diz:Mt interessante e o estudo reforça a máxima “na natureza nada se perde td se transforma”.

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BiodiversaLiana John

Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.

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