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Caranguejeiras x super bactérias tiago - 14/07/2010 às 12:01
Uma luta de aranhas contra super bactérias, fungos e parasitas não parece ter nenhum vínculo com a realidade da maioria dos cidadãos brasileiros. Soa mais como uma sugestão de roteiro para um filme de terror e suspense de segunda categoria. Mas esse combate é real e está na pauta de diversos cientistas brasileiros e franceses, tendo como foco principal um peptídeo chamado gomesina.De um lado do ringue estão micro-organismos resistentes. Como se sabe, a mania de automedicação e o uso indiscriminado de medicamentos na agropecuária induz o surgimento de bactérias e fungos altamente resistentes aos antibióticos disponíveis no mercado. Os super micro-organismos demandam esforços redobrados na desinfecção de hospitais e doses crescentes de antibióticos, com efeitos colaterais exponenciais.
A alternativa é partir para a produção de novas classes de medicamentos, com princípios ativos totalmente diferentes dos anteriores. E aqui entram em cena, em especial, as aranhas caranguejeiras, mas também escorpiões, opiliões, lacraias e companhia. Esses bichinhos que nos causam arrepios existem há pelo menos 350 milhões de anos. A julgar pelos fósseis de seus antepassados, mudaram muito pouco em um período tão grande. Isso os coloca na categoria dos animais bem sucedidos em seu design original e em seu sistema de defesa contra doenças e parasitas.
Um campo fértil, portanto, para investigações de compostos com poder antibiótico. Nessa linha, grupos de pesquisa do Japão e dos Estados Unidos trabalham com aracnídeos marinhos, em especial aqueles que vivem em ambientes muito contaminados por bactérias. E, aqui no Brasil, é a linha de pesquisa de Pedro Ismael da Silva Júnior, hoje no Instituto Butantan. Quando fazia parte da equipe da Universidade de São Paulo (USP) ele isolou um peptídeo chamado gomesina do sangue (hemolinfa) de caranguejeiras da espécie Acanthoscurria gomesiana. Junto com colegas da USP e do Centre National de La Recherche Scientifique (CNRS, da França), Silva Júnior identificou nesse peptídeo um bom potencial contra doenças causadas por bactérias, fungos e contra o parasita causador da leishmaniose.
A gomesina agora é objeto de estudos bioquímicos, cuja meta é desenvolver medicamentos antimicrobianos. Este tipo de uso já é objeto, inclusive, de uma patente depositada nos Estados Unidos pela USP. A gomesina destrói a membrana celular do micro-organismo, conforme testamos in vitro, e é eficiente no combate a fungos, como verificamos em modelos animais, revela Sirlei Daffre, do Departamento de Parasitologia da USP.
No teste contra fungos, a gomesina lutou contra Candida albicans, uma espécie bem conhecida pelas mulheres, causadora de corrimento vaginal. E venceu! O próximo round agendado é contra tumores do tipo melanoma. As chances de vencer também são boas.
Claro, como em qualquer pesquisa farmacológica, o desenvolvimento de medicamentos à base de gomesina ainda leva tempo e é preciso resolver algumas questões básicas, como a produção em larga escala para baratear custos. Mas, sem dúvida, é um bom caminho para chegar a antibióticos com ação diversa dos atuais.
No mundo, pelo menos cinco grandes laboratórios farmacêuticos investem em peptídeos semelhantes: dois nos Estados Unidos, um na França, um na Inglaterra e um no Canadá.
Nossa gomesina cuidadosamente selecionada pela natureza ao longo da evolução dessa aranha caranguejeira é um excelente exemplo de serviço prestado pela biodiversidade brasileira à população urbana. Em silêncio, porém com muita eficiência!
FOTO: Rudimar Cipriani
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15/07/2010 às 14:12 Anonymous - diz:
Marcelo Ismar Santana – diz:Apesar dos costumes cosmopolitas estarem cada vez mais tirando nosso hábito de contemplar a natureza, por trazerem atividades mais prementes ao cotidiano, a natureza nunca deixou de maravilhar a espécie humana, pois sua observação remete às nossas origens de comunhão e dependência.Sendo assim, cabe a nós a criação de ferramentas para trazer o mundo natural com sua vasta biodiversidade para o nosso mundo, mesmo que seja de maneira virtual.Portanto Liana, parabéns pelo blog.
15/07/2010 às 20:27 Anonymous - diz:
Antônio Célio Azevedo – diz:Com a natureza ainda temos muito a nos beneficiar, só nos cabe por algum meio acabar com a cultura das pessoas de automedicação, e assim na fauna e flora chegarão as curas para os males. Valeu pelo blog.
16/07/2010 às 11:49 Anonymous - diz:
Maraísa Ribeiro – diz:Não é novidade, o ‘design’ original da caranguejeira nunca foi do meu agrado (risos). É sempre bom Liana aprender mais e mais com a natureza e também com você. Parabéns, pelo blog!
17/07/2010 às 23:19 Anonymous - diz:
Isabel Pellizzer – diz:Vou tentar lembrar disso quando encontrar uma caranguejeira. Ponto para a caranguejeira!
19/07/2010 às 09:52 Anonymous - diz:
Geraldo Edler – diz:Fantástica essa descoberta, essa pesquisa e essa matéria. Ouvi dizer que a teia das aranhas também está servindo para o melhoramento da fibra do algodão por transgenia. Ciência e biodiversidade dão certo.
22/07/2010 às 15:35 Anonymous - diz:
Isabel Pellizzer – diz:Mas, às vezes, seu caminho pode ser esbarrado pela biosegurança, principalmente, quando se fala em transgenia.
27/07/2010 às 18:31 Anonymous - diz:
Geraldo Edler – diz:Razões de biossegurança podem restringir e barrar produtos se isso tiver base científica. Apesar de que ninguém come fibra de algodão e hoje todas confecções que chegam aqui da China e Ásia são de algodão transgênico. Deveria ser alguma razão ambiental… O duro é quando barram esquisas e produtos por obscurantismo ou por achismo a priori.
08/08/2010 às 18:45 Anonymous - diz:
Isabel Pellizzer – diz:Tem razão Geraldo Edler. Obrigada pela explicação!
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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