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Bom para bumbum de bebê Liana John - 22/09/2011 às 20:56
O óleo de candeia é um velho conhecido da indústria cosmética. Tem ação anti-inflamatória, calmante e é indicado principalmente para peles sensíveis. Por isso, entra na composição de uma porção de cremes, loções e pomadas, como base para protetor solar, pós-sol, pós-barba, pós-depilação, antiassaduras, creme dental, tonificante, hidratante e protetor de corpo, mãos e lábios. Entra também nos lenços umedecidos, em todas as versões disponíveis no mercado: íntimos, refrescantes, para remoção de maquiagem e para limpar bumbum de bebê.
O componente mais importante do óleo, chave do sucesso de todos esses produtos é um álcool sesquiterpênico chamado alfabisabolol. A candeia com maior teor da tal substância é Eremanthus erythropappus, de ocorrência mais concentrada em Minas Gerais, entre 1.000 e 1.700 metros de altitude, em encostas pedregosas, de solos rasos e pouco férteis.
Diversas outras árvores do mesmo gênero são chamadas de candeia também, porém não têm o mesmo teor de alfabisabolol e, portanto, não se prestam à exploração em escala comercial. Algumas delas são usadas para mourões de cerca, pois o óleo impregnado na madeira serve como defesa contra pragas e fungos, garantindo alta durabilidade mesmo sem pintura ou tratamento químico.
As diversas aplicações industriais do alfabisabolol são mais um exemplo da utilidade da biodiversidade brasileira e, ao mesmo tempo, uma “maldição” para a candeia “verdadeira”. Tudo por causa da forma de extração do óleo: é preciso cortar a árvore, transformar tronco e galhos em lenha e depois picar esta lenha para expor o cerne da madeira. Em pedaços pequenos (cavacos), a candeia é então colocada em condensadores e separadores para extração do óleo por solventes ou vapor. E a árvore cortada raramente volta a crescer.
Assim, a contribuição mais significativa da pesquisa com candeia não é a melhoria dos processos de extração ou beneficiamento do óleo, mas o estudo de alternativas de plantio e manejo sustentável da árvore para fazer frente à exploração predatória. “Nos anos 1990, vi uma reportagem na TV sobre o corte clandestino de candeia que me motivou a trabalhar com a espécie. Procurei o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para trabalhar num projeto de geração de tecnologia que levasse à sustentabilidade na exploração da candeia”, conta o doutor em Engenharia Florestal, José Roberto Soares Scolforo, atual vice-reitor da Universidade Federal de Lavras (UFLA).
Os dois primeiros passos foram propor o manejo sustentável de candeais nativos e fazer um acordo com as indústrias, para acabar com a compra irregular da lenha de candeia. Os recursos para a pesquisa vieram do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).
“Quando iniciamos o projeto, em 2000, as indústrias pagavam R$ 30,00 pelo metro de lenha de candeia. Hoje pagam R$ 120,00 e já temos mais de 200 planos de manejo aprovados. Monitoramos os produtores e verificamos um índice de sucesso de 85%”, prossegue o pesquisador. “Paralelamente, investimos na domesticação da árvore, ou seja, em melhoramento, seleção, tecnologias de cultivo e, mais recentemente, clonagem. Ainda não podemos garantir que as candeias plantadas terão os mesmos teores de óleo na madeira e de alfabisabolol no óleo, mas os indícios são positivos”.
De acordo com Scolforo, a natureza da candeia favorece o manejo sustentável. “É uma espécie rústica, de 6 a 7 metros de altura e tronco com 15 cm de diâmetro, em média. Cresce em áreas onde seria difícil implantar qualquer lavoura ou mesmo fazer reflorestamentos com outras espécies”, diz. A candeia só precisa de sol e de proteção contra o gado e o fogo. “Aqueles que seguiram nossas prescrições já têm um candeal remanescente vindo com mais vigor do que anterior”, acrescenta.
Cada árvore adulta produz, entre agosto e setembro, cerca de 3 mil sementes minúsculas, dispersadas pelo vento. As sementes só precisam cair num solo que não esteja coberto de capim e nem excessivamente compactado. Assim, o simples fato de deixar algumas matrizes no campo, sem cortar, já garante o estoque necessário de sementes. Na época da frutificação, basta roçar e afofar a terra em pequenos círculos de 50 cm, distantes 2,5 metros entre si, e a natureza faz o resto, encarregando-se de distribuir as sementes. Esse manejo simples assegura a germinação em massa de novas mudas, regadas pelas chuvas de primavera, a partir de outubro.
Quando as mudas atingem de 50 a 80 centímetros, é feito um desbaste, deixando só as mais vigorosas. Em 15 anos, a área de manejo pode ser cortada novamente e com uma densidade de árvores adequada à exploração comercial. “O interesse dos produtores foi tão grande que fizemos uma parceria com o Instituto Estadual de Florestas (IEF MG) para a criação de um programa de fomento florestal. O objetivo é plantar 2 milhões de mudas de candeias nas serras da Mantiqueira e do Espinhaço”, revela. “Para um projeto que começou quase do nada, considero que chegamos até as pessoas, até a mídia especializada e estamos disseminando as tecnologias, além de contar com a adesão das empresas que processam o óleo”.
Graças a Scolforo e aos 22 pesquisadores envolvidos neste projeto, os mineiros começam a descobrir como é bom trabalhar às claras, sem o estresse e a devastação da ilegalidade. A perspectiva, agora, é de ampliar a oferta de alfabisabolol no mercado, sem depauperar o patrimônio natural.
Ainda de fraldas, a nova geração tem motivos para comemorar essa dupla proteção: dos candeais e dos bumbuns!
Foto: Liana John
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23/09/2011 às 11:13 matheus fortunato - diz:
Mais um grande exemplo de iniciativa….parabens Liana pelo texto
23/09/2011 às 12:53 Rudimar Cipriani - diz:
Li os dois posts – da pimenta-de-macaco e da candeia – por sinal ambos super interessantes. Cada vez mais admiro seu louvável esforço em difundir todo potencial atribúido à nossa biodiversidade. Parabéns e obrigado por compartilhar tão significativo conhecimento.
23/09/2011 às 17:11 Monica Buono - diz:
Olá Liana,
Parabéns pela reportagem tão exata e bem escrita!
Os consumidores não sabem que existe óleo de candeia nos produtos que utilizam para peles sensíveis e ainda pensam que o bisabolol vem da camomila, mas há alguns anos a candeia substituiu com vantagem esta plantinha.
Também somos parceiros da UFLA no Projeto Candeia e trabalhamos principalmente com os candeais plantados. As mudas são produzidas por 42 viveiros familiares, em parceria com o IEF/MG.
Visite nosso site http://www.amanhagua.org
Gostaria de te mandar uma foto das flores da candeia, depois de abertos os botões que aparecem na foto que ilustra esta reportagem, mas não sei como e então fica para uma outra ocasião…
Ah, e vale a pena experimentar o mel com predominancia de flores de candeia, incomparável!
15/04/2013 às 23:32 paulo albuquerque - diz:
onde adquiro mudas de candeia? resido em Belo Horizonte
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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