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Bicão high-tech Liana John - 16/06/2011 às 18:04
O acaso tem lá
suas razões de ser. Mesmo que se leve muito tempo para descobrir quais são. Uma
boa prova é a história do pesquisador Marc André Meyers, da Universidade da
Califórnia, em San Diego, especialista em comportamento mecânico de materiais e
engenharia aeroespacial. Nascido em Monlevade, no Brasil, ele costumava
acompanhar o pai na mata. Um dia, já adolescente, encontrou um esqueleto de
tucano debaixo de uma árvore.Peguei o bico
que era extraordinariamente leve e, ao mesmo tempo, forte. Eu me perguntei
porque, mas acabei guardando a questão lá no fundo da minha mente. Quarenta e
cinco anos depois, minha curiosidade despertou novamente e consegui arrumar
outro bico de tucano para estudar, conta.
O bico foi
fornecido por Jerry Jenkins, proprietário do criadouro e pousada Emerald Forest
Bird Gardens, também localizado na Califórnia. O animal pertencia a uma espécie
brasileira bastante comum o tucano-toco (Rhamphastos toco) e o animal havia
morrido de causas naturais. O bico do tucano, vale ressaltar, corresponde a um
terço do tamanho da ave, mas a apenas 1/20 do peso total.
Usamos as
ferramentas de qualquer cientista de materiais moderno: microscópio de
escaneamento e transmissão de elétrons, difração de raios-X, tomografia computadorizada,
microscopia ótica, teste de tensão, teste de microdenteação, teste de
nanodenteação, análises de elementos finitos e modelagem analítica matemática,
uma abordagem bastante completa, prossegue Meyers, que trabalhou durante cinco
anos na orientação desse trabalho, realizado em parceria com os então pós-graduandos
Yasuaki Seki e Matthew S. Schneider. Os pesquisadores usaram três dos mais
avançados laboratórios de materiais e microscopia dos Estados Unidos: o
National Center for Electron Microscopy and Imaging Research; o Nano3 Lab e o
Scripps Institution of Oceanography.
A curiosidade de
garoto então resultou numa pesquisa premiada: a equipe verificou que a
estrutura do bico do tucano era uma combinação singular de um material externo
sólido preenchido com uma rede fibrosa semelhante a uma espuma óssea. A parte
externa (queratina) é menos elástica do que a parte interna (composta de
proteínas ricas em cálcio). E, juntos, os dois materiais deste biocomposto têm
uma força e resistência muito maior do que cada parte isolada.
Esse tipo de
estrutura pode ser imitado para se fazer materiais ultraleves (mas resistentes)
para a indústria aeronáutica e para transporte em geral (na embalagem e proteção de produtos transportados,
por exemplo), acrescenta Meyers. A ciência que trata de casos assim em que a
alta tecnologia é desenvolvida a partir do estudo da natureza chama-se
Biomimética. O objetivo, no caso, é aprender com a natureza e não sobre a
natureza: estudar sistemas biológicos para desenvolver ou aperfeiçoar novas soluções
de engenharia.
Como se vê, o
bicão dos tucanos tem muito mais serventia do que aparenta. Por trás do
aparente despropósito de tamanho está um segredo high-tech que pode facilitar
muito a vida dos construtores de aeronaves ou quem sabe? até de foguetes!
Foto: Rudimar
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Narciso Cipriani (Tucano-toco Rhamphastos toco)
17/06/2011 às 11:33 Anonymous - diz:
Rudimar Narciso Cipriani – diz:Interessantíssimo esse post. Parabéns, Liana pela sua incessante busca e por nos proporcionar o acesso às novidades e descobertas do universo das pesquisas envolvendo a biodiversidade global.Essa do tucano me surpreendeu e é mais um exemplo da inesgotável fonte de inspiração que a natureza nos lega.AbraçoRudi
17/06/2011 às 12:29 Anonymous - diz:
Eduardo G. Ferreira – diz:Liana, muito bom dia. Concordo plenamente. E foi o que pensei, semana passada, quando vi (e tirei fotos) um tucano em vôo.Estava em um sítio em Minas Geriais – município de Comendador Gomes – região privilegiada pela natureza.Como ex-colaborador da fabricante brasileira de aeronaves EMBRAER, ainda pensei: – “não foi à toa que a EMBRAER apelidou uma de suas aeronaves com o nome de TUCANO”…A natureza que Deus nos presenteou é esplêndida – é o nosso maior tesouro. Saudações ambientais.
17/06/2011 às 15:30 Anonymous - diz:
Mariana Senna – diz:Vejo tucanos constantemente no meu trabalho e os admiro a cada vez que os vejo. Agora me surpreendi ainda mais… Parabéns pela matéria!
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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