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A volta por cima da velha piaçava Liana John - 15/12/2011 às 21:34
Aposentada em muitas fábricas de vassouras, a piaçava foi substituída por fios plásticos que nem varrem tão bem, nem se degradam quando terminam sua vida útil. É uma pena, pois a fibra dessa valente palmeira nordestina tem qualidades que bem merecem uma reabilitação em novas funções.
Originária da Bahia, a piaçaveira (Attalea funifera) consta do relato de Pero Vaz de Caminha quando do Descobrimento do Brasil. Passou, então, a gozar de boa reputação devido à qualidade das cordas feitas com suas fibras, usadas nas caravelas durante muitos anos. Ainda hoje, como naquela época, a exploração comercial da piaçava depende da ocorrência natural da palmeira, embora a produção pudesse ser multiplicada caso fossem implantados sistemas agroflorestais, conforme sugere o engenheiro agrônomo José Roberto Vieira de Melo, da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac).
Segundo ele, a piaçaveira cresce em solos pobres, arenosos e ácidos (pH entre 4 e 5,5), onde outras culturas não vingam. Por isso mesmo serve para recomposição e enriquecimento florestal. “A fibra da piaçaveira é retirada da inserção das folhas no caule. O nome técnico dessa parte da palmeira é bráctea e ela existe para proteger as folhas, sustentando-as quase na vertical, apesar de seu peso e tamanho”, diz Vieira de Melo. Entre as vantagens dessa fibra destacam-se a extrema flexibilidade, a impermeabilidade, a resistência e o fato de ser muito longa – atingindo até 3 metros!
Como outras palmeiras brasileiras, diversas partes da planta podem ser aproveitadas para usos bem mais nobres do que varrer o chão, gerando alternativas de renda em pequenas propriedades familiares. Um desses usos foi objeto da dissertação de mestrado da agrônoma Fabiana Ferreira Avelar, na Universidade Federal de Lavras (UFLA), em Minas Gerais.
A pesquisadora coletou as aparas de piaçava consideradas resíduo em uma fábrica de vassouras local e moeu até obter um pó homogêneo. Depois fez a ativação de quatro modos diferentes, adicionando cloreto de zinco, ácido fosfórico, dióxido de carbono e vapor d’água. Em seguida, levou as quatro amostras a um forno especial, com atmosfera inerte (nitrogênio) para promover a queima sem oxigênio.
“As amostras com ativação química (as duas primeiras) ficaram no forno durante 3 horas a 500 graus centígrados, enquanto as amostras com ativação física (as duas últimas) precisaram de 700 a 800 graus centígrados”, conta Fabiana, hoje doutoranda na Universidade Federal de Viçosa (UFV), também em Minas Gerais. Os produtos desses processos são quatro versões de carvão ativado para filtros domésticos e industriais.
“Testamos a eficiência do carvão ativado com o que chamamos de moléculas-modelo, que nos dão uma indicação da capacidade de filtragem”, explica ela. As moléculas são o azul de metileno, o vermelho reativo e os metais zinco, cobre e cromo, todos em solução aquosa, além do fenol, poluente derivado de processos petroquímicos. Os testes medem a adsorção dessas moléculas, que ficam retidas no filtro com o carvão ativado. Reparem que a palavra é adsorção e não absorção: adsorver é reter átomos, moléculas ou íons (os contaminantes) na superfície de sólidos (o carvão ativado)
“A piaçava é adequada para o carvão ativado devido à sua composição, com alto teor de lignina e celulose”, acrescenta Fabiana. O carvão ativado por processo químico com cloreto de zinco adsorveu melhor o azul de metileno, o cobre e o cromo. O carvão ativado por processo físico com vapor d’água foi mais eficiente na filtragem de fenol e o carvão ativado por processo físico com dióxido de carbono seria recomendado para retirar zinco da água.
Em outras palavras, a piaçava se provou melhor do que a encomenda em matéria de limpeza. Além de deixar tudo varridinho, é eficiente na descontaminação de água, mesmo que os poluentes sejam “barra pesada” como é o caso do fenol.
É ou não é um bom motivo para reabilitar os piaçaveirais baianos?
Fotos: José Roberto Vieira de Melo/CEPEC/CEPLAC (fibras de piaçava ao alto e piaçaveiras abaixo)
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17/12/2011 às 20:05 Moacyr Castro - diz:
Liana!
Estou de queixo caído. Do nada, vc tira tudo.
Parabéns.
Em tempo: Existe ‘Oscar’ pra esse trabalho que você faz?
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Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade.
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