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Muito além dos muros da escola Juliana Arini - 15/05/2015 às 17:36

Ainda são sete da manhã, mas um coro formado pela mistura de gritos, brincadeiras e risadas de crianças toma o pátio da Escola Municipal Erenice Simão, em Cáceres, no Mato Grosso. É a primeira vez que os alunos da quinta-série do fundamental  participam de uma atividade fora da sala de aula.

A proposta é que eles busquem as aves do Pantanal nos arredores do colégio. Com um binóculos e um guia de aves em mãos, o grupo saí em fila, guiados pelos instrutores do Projeto Bichos do Pantanal. Em menos de dez metros alguns bem-te-vis recepcionam as crianças. É o primeiro momento de silêncio desde que saíram de dentro do prédio. “Ele tem a cabeça rajada e o olho pretinho!”, afirma uma menina de cabelos cacheados, enquanto olha pelo binóculos.

Um tucano corta o céu e corujas surgem em uma árvore próxima de um muro. As crianças correm atrás das aves que passam e se enfileiram para ver um ninho de joão-de-barro. “Nunca tinha percebido esses passarinhos todos”, comenta um menino que segue o voo de um beija-flor.

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Despertar o interesse das crianças nas aves é uma forma de reconectá-las ao meio ambiente. Mesmo no coração do Pantanal, em Cáceres, no Mato Grossos, grande parte dos habitantes da cidade não se reconhecem como moradores desse ecossistema. “Elas não se consideram parte do meio ambiente. Isso é comum hoje, pois as crianças tem interagido cada vez menos com a natureza”, explica Douglas Trent, ecólogo e pesquisador-chefe do Projeto Bichos do Pantanal, realizado pelo Instituto Sustentar, com patrocínio da Petrobras.

Trent é o idealizador das ações de educação ambiental que vem sendo aplicadas nas escolas de Cáceres.  “Se perguntarmos para as pessoas quantas aves existem nas árvores em volta de suas casas, a grande maioria não vai conseguir distinguir nem cinco espécies. Foi inspirado nos movimentos mundiais que defendem a reconexão do ser humano com a natureza que decidi criar o projeto Bichos do Pantanal nas Escolas”, afirma o ecólogo.

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Estudos coordenados pela Ong americana Children & Nature Network, com apoio de universidades, como Yale, o Centro Inglês para a Natureza e a Comissão de Educação e Comunicação da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) revelam que as crianças hoje passam menos tempo na natureza do que os seus país quando eram crianças. Essas taxas declinam desde 2006.

Uma pesquisa coordenada por Jerome L. Singer da Universidade de Yale, no EUA, abordou crianças de até 12 anos e trouxe dados chocantes. Foram estudados grupos em países como Argentina, Brasil,  China, França, Índia, Indonésia, Irlanda, Marrocos, Paquistão, Portugal, África do Sul, Tailândia, Turquia, EUA, Reino Unido e Vietnã. Os dados mostraram que as crianças hoje assistem 72% mais televisão do que as suas mães durante a infância. E ver TV  é a principal atividade recreativa de muitas delas.

As pesquisas também revelam que permanecer um tempo em conexão com a natureza traz ganhos de aprendizado, principalmente nos casos de déficit de atenção. E, mesmo entre as crianças sem problemas cognitivos, o contato com a natureza ajuda no aprendizado, na fixação do conteúdo e também no equilíbrio do sistema imunológico.

Foi para transformar essa realidade que surgiram as atividades do Projeto Bichos do Pantanal nas escolas de Cáceres. A ideia é que as crianças se reconheçam como parte do Pantanal através da observação de aves.

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“A observação de aves é a proposta de um novo espaço de aprendizado. Estamos formando novos observadores e despertando a sensibilidade das crianças em relação a natureza”, explica Orilzo de Campos Silva,  um dos três instrutores de educação ambiental do Projeto Bichos do Pantanal, que desde 2013 visitam as escolas com a missão de trazer as crianças para além da sala de aula. Durante as palestras do Projeto, os alunos recebem uma cartilha com um guia de Observação das Aves e aprendem sobre a natureza do ecossistema Pantanal.

O passo seguinte são as atividades fora da sala de aula. Um passeio pelos arredores da escola é a primeira ação de sensibilização do Projeto quando entra em contato com um grupo de alunos. Reconhecer a biodiversidade das aves que estão próximas tem se mostrado uma poderosa ferramenta de conexão com a natureza.

“A percepção das crianças fica mais aguçada. Elas começam a perceber detalhes que muitas vezes nunca buscavam nas aves. Isso aumenta a curiosidade delas e faz com que passem a valorizar mais esses animais”, explica Evelyn Damasceno, instrutora de Educação Ambiental do Projeto.

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A equipe já visitou mais de 200 salas de aula, palestrando para mais de 15 mil crianças em Cáceres. Os resultados dessas ações ainda não foram concluídos, porém os instrutores já notam até mudanças de comportamento nas crianças da região.

“Em muitas escolas, antes das palestras, percebemos  uma relação até meio agressiva de algumas crianças com as aves. Alguns estão acostumados a caçar passarinhos”, afirma Maria Claudia Ovelar, instrutora de Educação Ambiental do Projeto Bichos do Pantanal. “Depois da palestra e da atividade de observação, percebemos que essas mesmas crianças retornam com mais ternura pelos animais e inclusive com  vontade de conhecerem mais as aves. É uma semente para ampliar a vontade de preservarem o meio ambiente”, conclui Maria Claudia.

Foto: Juliana Arini

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O turismo de narrativa pode tornar-se um caminho para a preservação do Pantanal Juliana Arini - 17/04/2015 às 12:15

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A afirmação é do especialista em turismo e economista, Claudio Moura Castro, que visitou o Pantanal de Cáceres, no Mato Grosso, para ministrar uma palestra sobre os possíveis caminhos para o desenvolvimento do turismo na região. “O Pantanal é um dos últimos refúgios da natureza e, ao contrário da Amazônia, possui uma paisagem dinâmica e variada. É um dos poucos lugares do mundo capaz de rivalizar com o continente africano em potencial de observação da vida animal”, afirma Castro. “O que falta a região para desenvolver sua potencialidade turística é que os empresários e agentes públicos apreendam a embalar as possíveis histórias que o Pantanal tem a oferecer”.

O turismo de narrativa agrega a experiência de ir a outro lugar ao enredo que representa uma viagem. O guia turístico seria o condutor do viajante por essa jornada, o transportando para um outro mundo através das histórias e possibilidades de um destino.

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Para o Pantanal, uma região rica em biodiversidade, mas que ainda tem índices de desenvolvimento muitas vezes abaixo da média nacional, essa nova modalidade de turismo pode ser um caminho possível. Aproveitar as potencialidades da natureza e da cultura pantaneira pode ajudar a atender a demanda da população local de emprego e renda, sem que seja necessário degradar esse ecossistema.
Um dos principais mentores da ideia do turismo com narrativa foi o dinamarquês Rolf Jensen que escreveu a “A sociedade dos sonhos”, onde descreve sobre a necessidade de se criar uma customização dos serviços oferecidos. Essa nova roupagem e vínculo, gerados a partir de uma experiência memorável do consumidor, impactam inclusive o preço do serviço oferecido.
Jensen aplicou a proposta no Brasil por meio do projeto “Turismo de Experiência”, desenvolvido pelo Sebrae com a sua consultoria. A proposta é fazer com que o viajante mergulhe nos costumes e tradições de uma região e vá além das visitas a pontos turísticos conhecidos.


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O turista deixa de ser um observador do lugar e torna-se um protagonista das experiências. Algo como acompanhar uma colheita de açaí no Pará ou degustar vinhos nas vinícolas do Rio Grande do Sul. Uma tendência que já acontece em países como Itália e Peru, onde os visitantes participam da coleta de trufas e da produção de quinoa.

O maior obstáculo do Pantanal seria o fato de poucos brasileiros conhecerem esse ecossistema. Uma pesquisa do Ibope/WWF-Brasil revelou que 66% das pessoas não sabem apontar em qual região no Brasil fica o bioma Pantanal. “Essa é uma clara desvantagem na hora do turista se programar para uma viagem, porém pode ser uma vantagem também, pois cria a oportunidade do Pantanal ser descoberto ou redescoberto, como já ocorreu com regiões como Tiradentes, em Minas Gerais”, explica Castro.
Há vinte anos atrás, a cidade mineira quase não recebia turistas, porém, com a criação de uma estrutura receptiva mínima, passou a ser revisitada. “Trazer mais turistas para o Pantanal não é algo complicado, pelo contrário é mais simples do que se imagina, basta que alguns serviços básicos que o turista espera sigam os padrões internacionais”, afirma Castro. Até a ideia de que a região é muito distante parece ser um mito. “Tão longe como Foz do Iguaçu e Fernando de Noronha, e mesmo assim as pessoas visitam essas regiões”, explica.

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“O grande atrativo é a natureza extraordinária do Pantanal, não há necessidade de se criar nada complexo. A região já tem uma grande biodiversidade, paisagens únicas e pode oferecer grandes experiências para um viajante”, afirma Douglas Trent, pesquisador-chefe do Projeto Bichos do Pantanal, patrocinado pela Petrobras e que tem ações para transformar o turismo de natureza em uma ferramenta de crescimento econômico e de preservação do Pantanal. Uma das ações coordenadas por Trent, através do Projeto Bichos do Pantanal, é a criação de uma nova rota turística na região de Cáceres, no Mato Grosso: a Estrada Transpantanal.
A proposta é que a rota seja um complemento ao turismo de pesca que já ocorre na região e um indutor a uma nova forma de se receber os viajantes no Pantanal. “O turista quer ser bem recebido, ter acesso a acomodações e fazer refeições condizentes com o padrão internacional. Essa infraestrutura mínima, somada a natureza da região, pode levar as pessoas a redescobrirem e consolidarem o Pantanal com um grande atrativo”, diz Trent. “Para isso acreditamos que a formação de guias é um passo fundamental. As pessoas da região precisam agregar o seu saber local, a fluência no inglês e, também, aprenderem a atender os padrões mundiais do turismo de observação de vida silvestre”, conclui.

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As cidades de Gramado e Canelas, no Rio Grande do Sul, e Bonito, no Mato Grosso do Sul, são exemplos de que com algum investimento e planejamento, o turismo pode virar um forte contribuinte para a economia local. “Gramado por exemplo é um atrativo que investiu fortemente no enredo local, com um grande apelo para a cultura da Serra Gaúcha e a gastronomia. No Pantanal, isso tudo já existe também, basta que as pessoas aprendam a embalar esses atrativos todos com bons serviços de hospedagem, transporte e alimentação”, conclui Castro.

Fotos: Douglas Trent e Juliana Arini/Projeto Bichos do Pantnal

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As fazendas de peixe vão dominar os rios? Juliana Arini - 27/03/2015 às 11:24

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Hoje a maior produção de carne do planeta vem da criação de porcos, com 109 milhões de toneladas por ano de proteína animal. Uma projeção da Organização das Nações Unidas para Alimentação e a Agricultura (FAO) prevê que, em 2050, a piscicultura ultrapasse essa produção, chegando a 1.767,5 milhões de toneladas por ano.

A criação de peixes em tanques-redes, construídos nos ambientes naturais, representa a maior parcela da aquicultura atual. Será que o futuro dos rios é ser dominado por fazendas de proteína animal? Quais seriam os impactos desse avanço da produção de alimentos em direção às águas?

No Pantanal, o aumento da piscicultura em tanque-rede é uma proposta polêmica. Os possíveis impactos ambientais relacionadas a essa produção fazem com que muitos olhem a atividade com desconfiança. A questão dos resíduos e a contaminação dos rios por peixes exóticos são os principais pontos.

Para Claumir Muniz, pesquisador do Projeto Bichos do Pantanal e professor da Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat), ainda não há tecnologia para suportar essa atividade na região. “A piscicultura é uma alternativa ótima para reduzir a pressão de pesca sob as espécies comerciais, porém o tanque-rede é uma opção complicada. Aqui não há qualidade da água o ano todo, em alguns meses o oxigênio chega a quase zero e podemos perder toda a produção”, explica Muniz.

A alternativa atual da região são os tanques escavados. “O tanque-rede pode ser um caminho para espécies de ciclo curto, que se desenvolvem rápido, como as corimbas, mas você precisa abater os juvenis. Nesse caso há mais custos e essa produção deixa de ser uma solução viável”, afirma Muniz.

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As doenças e a invasão dos rios por peixes de baixa variedade genética são outros obstáculos. “Na situação atual, temos mais contras do que a favor para o tanque-rede no ambiente pantaneiro. Precisamos investir em mais estudos”, conclui.

O potencial de expansão da atividade e o baixo impacto ambiental, significativamente menor do que outras atividades humanas nos rios, como o lançamento de esgoto in natura, são os argumentos dos que defendem o aumento da piscicultura nas bacias hidrográficas brasileiras. Mesmo sem grandes investimentos de pesquisa, a aquicultura já cresce até 12% ao ano.

Para Silvio Romero de Carvalho Coelho, doutor em aquicultura pela Universidade de São Paulo, a domesticação dos peixes é a última fronteira da alimentação humana. “O planeta conta com uma população de 7 bilhões e as fontes de proteína precisam aumentar. O uso dos recursos, principalmente hídricos, para a produção de gado são questionados. Agora precisamos nos voltarmos para os animais ainda não domesticados: os peixes e os insetos”, explica Coelho. “Acredito que os peixes são mais atrativos do que os insetos”, brinca.

O pesquisador explica que ao contrário do trigo, que integra a dieta humana há 5 mil anos, e o gado, que foi domesticado há 300 anos, as espécies de peixes dos rios brasileiros são pouco exploradas - um verdadeiro tesouro oculto.

Segundo a FAO, das 148 espécies de grandes herbívoros, somente 14 foram domesticadas e 5 são responsáveis por 90% da produção pecuária mundial – bovinos, suínos, frangos, ovinos e caprinos. Dados da World Conservation Union revelam que existem 31.000 espécies de peixes, 47.000 de crustáceos, 85.000 de moluscos e 13.000 de algas. De todas essas, apenas 16 espécies de peixes são usadas na produção de proteína. No Brasil a tilápia é uma das espécies mais produzidas pela aquicultura. É irônico, pois temos a maior rede hidrográfica do mundo e produzimos toneladas de tilápia e carpas, duas espécies exóticas. Daí tantos apelos por pesquisas e desenvolvimento de novas tecnologias.

Para Coelho, a atividade além de possibilitar novas fontes de proteína pode ajudar profissões ameaçadas, como a do pescador tradicional dos rios. No Mato Grosso, por exemplo, já existe, a proibição de pesca de peixes como o dourado, que desde de janeiro 2012 tem a pesca proibida por cinco anos em todo a porção brasileira do rio Paraguai.

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Mas, transformar pescadores tradicionais em produtores de peixe é um caminho que requer investimento e atenção do governo. “O pescador é naturalmente capacitado, afinal tem décadas de atuação prática. Ele entende da saúde da qualidade da água e de todas sutilezas que envolvem manejar um peixe. Agora, para dar certo, ele precisa de treinamento e apoio financeiro, com linhas de financiamento que possibilitem a continuidade da atividade até ela tornar-se sustentável”, afirma Coelho. “Agora, é impossível dizer que a profissão de pescador vai acabar. Isso nunca vai ocorrer, porém a piscicultura, em alguns casos, pode ser um caminho para salvar a estagnação imposta pela natureza para a atividade”, conclui Coelho.

O “panga” é um exemplo da necessidade de atenção com o crescimento da piscicultura. Produzido em países como Filipinas, Indonésia, Tailândia e Vietnã, o peixe é uma das espécies de rio mais vendidas do mundo, porém a sua produção começou nas águas mais poluídas do rio Mekong, na Ásia. A qualidade ambiental e sanitária da carne do panga é muito questionada.

Para reverter esse quadro, desde 2012, os governos asiáticos, investiram em pesquisa e assistência técnica para melhorar a qualidade do panga exportado para a Europa. “Provavelmente em cinco anos, o panga pode dominar a produção mundial de peixes, tal como ocorre hoje com o salmão, que também deu um grande salto de qualidade na sua criação”, explica Coelho.

Para evitar que as fazendas de peixes virem foco de contaminação e poluição, a (inevitável) expansão da piscicultura no Brasil também precisa respeitar a singularidade dos nossos rios. Uma questão pouco debatida e que precisa ser observada com mais atenção pelo governo e a opinião pública.

No Pantanal, o aumento da produção de peixes parece ser um caminho sem volta. Caso o Projeto da Lei de número 750 de 2011, conhecido como a “Lei do Pantanal” - de autoria do senador Blairo Maggi – seja aprovado, haverá uma moratória da pesca nos rios da região. Se isso acontecer, o consumo de peixe, que tem um grande peso como fonte de proteína animal para os moradores da região, terá a aquicultura como única fonte.

Fotos: Claumir Muniz e  Silvio Romero de Carvalho Coelho.

 

 

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No Pantanal não se pode passar a régua. A régua é existidura de limites e o Pantanal não tem limites”. O poeta Manoel de Barros traduziu a maior área alagada continental do mundo e morada de espécies, como onças, ariranhas e tuiuiús. Este blog é para os que desejam ouvir histórias dos pantaneiros, de nascimento e coração, que pesquisam e amam esse ecossistema por meio do Projeto Bichos do Pantanal (realizado pelo Instituto Sustentar com apoio do Programa Petrobras Ambiental,), que nasceu às margens do rio Paraguai, em Cáceres, no Mato Grosso para contribuir com as pesquisas, ações de educação ambiental e geração de renda para a comunidade local. Para mergulhar nesse mundo d’água basta seguir o convite da jornalista ambiental JULIANA ARINI, que nasceu na região e hoje vive com um pé em São Paulo e outro no Pantanal

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